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terça-feira, 23 de junho de 2015

Forró 78 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 138 (2015)


Ah, a alegria do reencontro...  É o que certamente vocês,  amigos cultos, ocultos e associados do nosso TM, estão sentindo ao ver, após longa ausência, mais um volume do nosso Grand Record Brazil. E eu também,  é claro, estava sentindo saudades deste convívio quinzenal com vocês.  Nesta que é a edição de número 138, estamos apresentando uma seleção de dezessete gravações, como sempre de alto valor histórico e artístico, de um gênero bem brasileiro, o forró. Afinal de contas, estamos em junho, mês de festas juninas, que no Nordeste sempre foram  verdadeiras apoteoses.

Pra começar, trazemos Gordurinha (Waldeck Arthur de Macedo, Salvador, BA, 10/8/1922-Rio de Janeiro, 16/1/1969),apresentando um baião dele mesmo em parceria com Nelinho, “Praça do Ferreira” (alusão a uma praça de Fortaleza, capital do Ceará, um dos pontos turísticos da cidade). Saiu pela Continental em setembro de 1961, sob número 17993-B. Em seguida, uma curiosa gravação de “Maria Chiquinha”,xote-balada humorístico de Guilherme Figueiredo e Geysa Bôscoli. Originalmente lançada por Evaldo Gouveia e Sônia Mamede na RGE, em agosto de 1961,aqui consta na gravação feita mais tarde por Marinês (“a rainha do xaxado”), em dueto com Luiz Cláudio, na RCA Victor.O registro data de 20 de outubro de 1961,editado sob número 80-2413-A,matriz M2CAB-1518, e saiu também no LP “Outra vez Marinês”. Um dos maiores conjuntos vocais da MPB,o Trio Nagô (Evaldo Gouveia, Mário Alves e Epaminondas de Souza) aqui comparece com o baião “O gemedor”, de Gilvan Chaves,originalmente lançado por ele mesmo em 1955. O Trio Nagô fez seu registro na RCA Victor em 20 de dezembro de 1956, e o lançamento deu-se em março de 57 sob número 80-1749-A, matriz BE6VB-1410. Marinês (Inês Caetano de Oliveira, São Vicente Férrer, PE, 16/11/1935-Recife, PE, 14/5/2007) comparece mais uma vez aqui com “Cadê o peba?”, divertido e malicioso coco de autoria de Zé Dantas, parceiro de Luiz Gonzaga em hits como “Vozes da seca”, “Cintura fina” e “O xote das meninas”. Marinês o gravou  na RCA Victor em 25 de janeiro de 1961, com lançamento em março seguinte sob número 80-2301-B, matriz M2CAB-1183, e o registro saiu também no LP “O Nordeste e seu ritmo”.  Manezinho Araújo (Manoel Pereira de Araújo, Cabo, PE, 27/9/1913-São Paulo, 23/5/1993), o eterno “rei da embolada”, aqui nos oferece um clássico do gênero, de autoria dele próprio:  é “Cuma é o nome dele?” (“É Mané Fuloriano”...), lançado pela Sinter em outubro de 1956 sob número 498-A,matriz S-822, figurando também no LP de dez polegadas “Manezinho Araújo cantando no Cabeça Chata” (um restaurante que ele então possuía no Rio de Janeiro, especializado em música e comidas típicas do Nordeste).  O eterno Rei do Baião, Luiz Gonzaga (Exu, PE, 13/12/1912-Recife,PE,2/8/1989), comparece aqui com um de seus primeiros  hits cantados. É o “chamego” “Penerô xerém”, dele e de Miguel Lima, gravação Victor de 13 de junho de 1945,lançada em agosto do mesmo ano, disco 80-0306-A,matriz S-078189. Na faixa seguinte,temos novamente Marinês, agora interpretando o xote “Peba na pimenta”, de João do Valle (antes de estourar nacionalmente com “Carcará”), José Batista e Adelino Rivera, outra divertida e maliciosa página do repertório da “rainha do xaxado”. Saiu pela Sinter em setembro de 1957 sob número 568-A, matriz S-1231, e também figurou no LP de dez polegadas “Vamos xaxar com Marinês e sua Gente”. “Peba na pimenta”  tem várias regravações, como as de Ivon Cúri e do próprio João do Valle. Gilvan (de Assis) Chaves (Olinda, PE, 20/9/1923-São Paulo, 12/8/1986) comparece nesta seleção com o divertido xote “Casamento aprissiguido”,de Ruy de Moraes e Silva. Foi por ele gravado na recém-inaugurada Mocambo, dos irmãos Rozenblit, que tinha sede no Recife,com lançamento por volta de abril de 1955, disco 15029-A,matriz R-545, figurando depois no LP-coletânea de dez polegadas “Oito sucessos”. Depois, Marinês volta, desta vez para interpretar “Xaxado da Paraíba”, de Reinaldo Costa e Juvenal Lopes,lançado pela Sinter por volta de outubro de 1957 sob número 579-A, matriz S-1253, sendo depois faixa de abertura do LP “Aquarela nordestina”. Temos depois a famosa “Mulher rendeira”, que ficou conhecida graças ao filme “O cangaceiro” (1953), produzido pela Vera Cruz e vencedor da Palma de Prata do Festival de Cannes como melhor filme de aventuras.  No entanto, o sucesso internacional do filme não impediu a falência do estúdio, uma vez que  a maior parte dos lucros ficou com sua distribuidora, a norte-americana Columbia Pictures.  De origem folclórica, mas com autoria por vezes atribuída aos cangaceiros do bando de Lampião e até mesmo a ele próprio,”Mulher rendeira” era cantada no filme pelos Demônios da Garoa (em “off”), e aqui apresentamos a gravação comercial, em ritmo de baião,  feita por eles mesmos, ao lado do cantor Homero Marques, em 27 de janeiro de 1953, com lançamento pela Odeon em março do mesmo ano, disco 13403-A, matriz 9594. O paraibano (de Taperoá) Zito Borborema, sobre quem pouco se sabe, a não ser que foi casado com Chiquinha do Acordeon , dessa união resultando um filho, Perpétuo Borborema, integrante do Trio Pé-de-Serra, aqui interpreta, acompanhado de seus “Cabras da Peste”, um clássico assinado por Venâncio e Curumba,o rojão (espécie mais acelerada de baião) “Mata Sete”. Foi lançado pela recém-nascida RGE,  de José Scatena, em dezembro de 1956, sob número 10018-A, matriz RGO-109, entrando depois no LP de dez polegadas “O Nordeste canta”.  Depois,temos novamente a grande Marinês, agora com outro clássico de João do Valle, feito em parceria com Silveira Júnior e Ernesto Pires: o xote “Pisa na fulô”,em gravação lançada pela Sinter em setembro de 1957 no lado B de “Peba na pimenta”, disco 568,matriz S-1232, sendo igualmente incluída no LP de dez polegadas “Vamos xaxar com Marinês e sua Gente” (o curioso é que “Pisa na fulô” também figurou no álbum “Aquarela nordestina”, em doze polegadas, editado posteriormente).  Outro grande nome da música nordestina, Luiz Wanderley (Colônia de Leopoldina, AL, 27/1/1931-Rio Tinto, PB, 19/2/1993) apresenta-se aqui com um xote dele próprio em parceria com Jeová Portela,”Moça véia”, gravação dos primórdios da marca alemã Polydor no Brasil, lançada em 1955 sob número 126-A, matriz POL-1065. Showman completo (cantor,compositor,humorista,etc.), o notável Ivon Cúri  (Caxambu, MG, 5/6/1928-Rio de Janeiro, 24/6/1955) aqui se faz presente com um verdadeiro clássico de seu repertório, o baião “Farinhada” (conhecido como “Tava na peneira”, primeiro verso da letra), assinado pelo mestre Zé Dantas. Ivon o imortalizou na RCA Victor em 8 de junho de 1955, e o lançamento se deu em agosto seguinte sob número de disco 80-1473-A, matriz BE5VB-0763, sendo a faixa mais tarde incluída no LP de dez polegadas “O rei decreta os sucessos” (Ivon era então o “Rei do Rádio”). ”Farinhada” tem várias regravações, inclusive do próprio Ivon Cúri. Luiz Wanderley retorna em seguida, desta vez para interpretar “O boi na cajarana”, motivo popular adaptado por Venâncio e Curumba, e por eles próprios lançado em disco,em 1953. O registro de Luiz Wanderley, em ritmo de baião, saiu pela Chantecler em janeiro de 1959, disco 78-0078-A, matriz C8P-155, e entrou mais tarde em seu primeiro LP, “Baiano burro nasce morto”.  Pernambucano de Amaraji, Ivanildo, conhecido como “o sax de ouro”, marca presença neste volume do GRB com o baião “Crioula”, de Moreira Filho, gravação Mocambo de 1961, lançada sob número 15372-A, matriz R-1263, e também faixa do LP “Uma noite no Comercial”.  Para finalizar, outro grande nome da música regional nordestina, Ary Lobo (Gabriel Euzébio dos Santos Lobo, Belém,  PA, 14/8/1930-Fortaleza, CE, 22/8/1980) apresenta o delicioso xote “Abotoa o paletó, Belizário”, de Geraldo Queiroz e Waldemar Tojal. É gravação RCA Victor de 10 de julho de 1957, lançada em setembro do mesmo ano sob número 80-1844-A, matriz 13-H2PB-0163. Enfim, uma seleção forrozeira de nível, que retoma a bem-sucedida trajetória do GRB, para alegria de tantos quantos apreciem nossa música popular no que ela tem de melhor. Puxa o fole,  maestro! 

* Texto de Samuel Machado Filho 

domingo, 10 de maio de 2015

Mães - Uma Coletânea De Mães Do Toque Musical (2015)



Aos filhos que possam interessar... Segue aqui uma seleção de mães tão variadas quanto o próprio Toque Musical. Mais que uma homenagem, pois para mim, mãe é todo dia. E a gente só percebe isso depois que ele já se foi. Sinto saudade das minhas. Eu tive duas! Se foi sorte por um lado, por outro a tristeza e saudade são dobrados. Mas quando olho para trás, vejo que tive lá muito sorte.
Segue assim esta seleção poética e musical que faz parte de muitos dos discos postados aqui. Parabéns as mamães!

minha mãe - dalva de oliveira e anisio silva
minha mãe, minha estrela - dalva de oliveira
minha mãe é mais bonita - angela maria
amor de mãe - maria creuza
poema para a minha mãe - babi de oliveira
amor de mãe - jamelão
minha mãe - álvaro moreyra
doce mãezinha - nora ney
canção da minha mãe - aniso silva
caquinho de mãe - siluca
mãe - sergio ricardo
cadê minha mãe - ary lobo
minha mãezinha - angela ro ro
coração de mãe - jorge goulart
mãe maria - josé dias
mãe é sempre mãe - bezerra da silva
mãeiê - osvaldo nunes e the pops
saudades da minha mãezinha - de moraes e doquinha
dia das mães - elza laranjeira
amor de mãe - vadico e vidoco
mulher valente é minha mãe - joão nogueira
mãe sempre mãe - tonico e tinoco
amor de mãe - mark morawski
minha mãe, minha vida - maris de oliveira
adeus mãezinha - durval e davi
obrigado mãe - angela maria e agnaldo timóteo
é mãe - vital farias
dia das mães - paulo gracindo
mãe solteira - jackson do pandeiro
canção das mães pretas - lia salgado
ser mãe - josé leão
mães - fernanda montenegro

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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Cinema Em 78 RPM - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol 137 (2015)


Estamos de volta com o Grand Record Brazil, agora em sua edição de número 137. E a seleção musical desta quinzena foi preparada por uma pessoa muito especial: eu próprio!  Tudo começou quando o Augusto me mandou  diversos áudios extraídos de clipes produzidos para o YouTube, pela Rádio Educativa Mensagem de Santos, aproveitando cenas de filmes diversos, todos em preto e branco. No entanto, apenas quatro músicas, devidamente conservadas aqui , fizeram realmente parte de filmes. Então sugeri que fosse feita uma edição com músicas que foram realmente apresentadas em películas de sucesso, a maior parte nacionais. Com o devido acolhimento da ideia, e com carta branca para sua elaboração,  consegui garimpar dezesseis fonogramas, alguns até raríssimos, extraídos das bolachas de cera velhas de guerra. Uma seleção que resultou inclusive de pesquisas em fontes diversas, particularmente o “Dicionário de filmes brasileiros – longa-metragem”, de Antônio Leão da Silva Neto (Editora Futuro Mundo, 2002). Isto posto,vamos às músicas.
Para começar, temos o clássico “O ébrio”, canção de e com Vicente Celestino, “a voz orgulho do Brasil”, por ele gravada na Victor em 7 de agosto de 1936 e lançada em setembro do mesmo ano, disco 34091-A, matriz 80195. O filme viria dez anos depois, produzido pela Cinédia e dirigido pela esposa do cantor, Gilda de Abreu, com grande bilheteria (teria superado até mesmo “Tropa de elite2”, o recordista oficial de bilheteria do cinema brazuca).  Esta gravação é uma montagem que apresenta, primeiramente, o monólogo inicial, extraído da regravação que Celestino fez da música em 1957, e, em seguida, o registro original de 1936, junção esta feita para a coletânea “Sessenta anos de canção”, lançada após a morte do cantor, em 1968. Inezita Barroso, recentemente falecida, aqui comparece com “Maria do mar”, canção do maestro Guerra Peixe em parceria com o escritor José Mauro de Vasconcelos, autor de romances de sucesso como  “Vazante”, “Coração de vidro”, “Banana brava” e “O meu pé de laranja-lima”. Fez parte do filme “O canto do mar”, produção da Kino Filmes dirigida por Alberto Cavalcanti, e Inezita a gravou na RCA Victor em 4 de agosto de 1953,com lançamento em  outubro do mesmo ano, disco 80-1209-B, matriz BE3VB-0222. Temos, em seguida, a única composição de origem estrangeira inclusa nesta seleção. Trata-se de “Natal branco (White Christmas)”, fox de autoria de Irving Berlin, um dos maiores compositores dos EUA, e sucesso em todo o mundo. Seu intérprete mais constante foi o ator e cantor Bing Crosby, que a lançou em um show que fez para os pracinhas norte-americanos que serviam nas Filipinas, durante a Segunda Guerra Munidal. Bing também interpretou este clássico em dois filmes: “Duas semanas de prazer (Holiday inn)”, de 1942, e “Natal branco(White Christmas)”, de 1954. Com letra brasileira de Marino Pinto, foi levado a disco na RCA Victor por Nélson Gonçalves, ao lado do Trio de Ouro, então em sua terceira fase (Lourdinha Bittencourt, então esposa deNélson, Herivelto Martins e Raul Sampaio), no dia 25 de novembro de 1955, mas estranhamente só saiu em janeiro de 56, disco 80-1551-B, matriz BE5VB-0926. Houve uma versão anterior, assinada por Haroldo Barbosa, que Francisco Alves interpretava em programas de rádio, porém não gravada comercialmente. Na quarta faixa, o maior sucesso autoral do compositor pernambucano Nélson Ferreira:  o frevo-de-bloco “Evocação”, primeiro de uma série de sete com o mesmo título, homenageando grandes nomes do carnaval recifense do passado. A interpretação é do Bloco Batutas de São José,lançada pela recifense Mocambo em janeiro de 1957, no 78 rpm n.o 15142-B, matriz R-791, e no LP coletivo de 10 polegadas “Viva o frevo!”.  “Evocação” foi também sucesso no eixo Rio-São Paulo, em ritmo de marchinha, entrando na trilha sonora do filme “Uma certa Lucrécia”, de Fernando de Barros, estrelado por Dercy Gonçalves. Logo depois, outra gravação da Mocambo: é a balada-rock “Sereno”, lançada em 1958 no 78 rpm n.o 15233-A, matriz R-985, e incluída mais tarde no LP “Surpresa”. A música fez parte do filme “Minha sogra é da polícia”, uma comédia dirigida pelo mesmo autor da composição, Aloízio T. de Carvalho, e por sinal bastante cultuada pelos fãs de dois futuros astros da Jovem Guarda, Roberto & Erasmo Carlos, pois marcou a primeiríssima aparição de ambos no cinema.  “Sereno” também foi revivida, em 1976, na novela “Estúpido Cupido”, da TV Globo, cuja trilha sonora foi a de maior vendagem da história da gravadora Som Livre: mais de dois milhões e meio de cópias! Na sexta faixa, uma raridade absoluta: trata-se da toada “Céu sem luar”, do maestro Enrico Simonetti em parceria com o apresentador de rádio e televisão Randal Juliano. Quem a interpreta, com suporte orquestral do mestre Tom Jobim, é Dóris Monteiro, em gravação Continental de 6 de maio de 1955, lançada em outubro do mesmo ano, disco 17171-A, matriz C-3628. Dóris também a interpretou no filme “A carrocinha”, produção de Jaime Prades estrelada por Mazzaropi  sob a direção de Agostinho Martins Pereira, e na qual Dóris também contracenou com outro mestre, Adoniran Barbosa (seu pai, na trama).  Desse mesmo filme, agora com o próprio Mazzaropi, um dos mais queridos comediantes do cinema brazuca, até hoje lembrado com saudade, é nossa sétima faixa, o baião “Cai, sereno (Na rama da mandioquinha)”, baião de Elpídio “Conde” dos Santos (autor do clássico “Você vai gostar”).O eterno jeca registrou “Cai, sereno” na RCA Victor em 2 de agosto de 1955, e o lançamento se deu em outubro do mesmo ano, disco 80-1497-A, matriz BE5VB-0821. Temos também o lado B desse disco,matriz BE5VB-0822, também de Elpídio: a rancheira “Dona do salão”, interpretada por Mazza no filme “Fuzileiro do amor”, dirigido por Eurides Ramos, primeira das três películas que o comediante fez no Rio de Janeiro para a Cinedistri, de Oswaldo Massaini.  Ângela Maria, a querida Sapoti, nos apresenta o expressivo samba-canção “Vida de bailarina”, de Américo Seixas em parceria com o humorista Chocolate (Dorival Silva). Fez parte do filme “Rua sem sol”, da Brasil Vita Filmes, dirigido por Alex Viany, e a gravação em disco saiu pela Copacabana em  dezembro de 1953, sob n.o 5170-B,matriz M-642. Voltando bem mais longe no tempo, apresentamos “Estrela cadente”, valsa-canção de José Carlos Burle, que fez parte do filme “Sob a luz do meu bairro”, da Atlântida, dirigido por Moacyr Fenelon. Carlos Galhardo,seu intérprete na película, cujos negativos infelizmente se perderam em um incêndio, gravou a música na Victor em 12 de abril de 1946, com lançamento em julho do mesmo ano sob n.o 80-0421-B, matriz S-078474. O eterno Rei do Baião, Luiz Gonzaga, apresenta a animadíssima polca “Tô sobrando”, que fez em parceria com Hervê Cordovil, e gravou na RCA Victor em 26 de julho de 1951, com lançamento em outubro do mesmo ano, disco 80-0816-A,matriz S-092995. Gonzagão também a interpretou no filme “O comprador de fazendas”, da Cinematográfica  Maristela, estúdio paulistano que ficava no bairro do Jaçanã, baseado em conto de Monteiro Lobato e dirigido por Alberto Pieralisi, tendo no elenco Procópio Ferreira, Hélio Souto e Henriette Morineau, entre outros (o próprio Pieralisi dirigiu uma refilmagem inferior, em 1974).  O número musical de Luiz Gonzaga, por sinal, foi rodado após o término das filmagens, uma vez que ele sofrera grave acidente automobilístico e quebrara o braço. Outra raridade vem logo em seguida: o samba-exaltação “Parabéns, São Paulo”, de Rutinaldo Silva,em gravação lançada pela Continental em março de 1954 (ano em que a capital bandeirante comemorou seus quatrocentos anos de existência), disco 16912-B, matriz C-3287. Esse foi o número musical de encerramento do filme “O petróleo é nosso”, da Brasil Vita Filmes, dirigido por um especialista em chanchadas, Watson Macedo. O belo samba-canção “Onde estará meu amor?”, de autoria da compositora e instrumentista Lina Pesce (Magdalena Pesce Vitale), é outra absoluta raridade nesta seleção “cine-musical”. Interpretado por Agnaldo Rayol no filme “Chofer de praça”, o primeiro que Mazzaropi fez como produtor independente, sob a direção de Mílton Amaral, foi lançado em disco pela Copacabana em maio de 1958, no 78 rpm n.o  5891-A, matriz M-2181, entrando mais tarde no primeiro LP de Agnaldo, sem título (CLP-11061). Gravações  posteriores de Dolores Duran e Elizeth Cardoso, também pela Copacabana, reforçariam o êxito de “Onde estará meu amor?”.  Silvinha Chiozzo, irmã da acordeonista e também cantora e atriz Adelaide Chiozzo,  aqui comparece com duas músicas que interpretou no filme “Rico ri à toa”, primeiro trabalho do cineasta Roberto Farias, que mais tarde fez ”Assalto ao trem pagador” e a trilogia cinematográfica estrelada por Roberto Carlos (“Em ritmo de aventura”, “O diamante cor-de-rosa” e “A trezentos quilômetros por hora”), sendo depois diretor de especiais da TV Globo.  Saíram pela Copacabana em 1957, sob número 5795. Primeiro,o lado B, “Zé da Onça”, baião clássico de João do Valle, o acordeonista Abdias Filho (o famoso Abdias dos Oito Baixos) e Adrian Caldeira, matriz M-1990, que Silvinha canta em dueto com Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga. Vem depois o lado A, matriz M-1965, “É samba”, que Silvinha canta solo, concebido por Vicente Paiva, Luiz Iglésias e Walter Pinto, os três ligados ao teatro de revista. Para terminar, um verdadeiro clássico interpretado pelo grande Cauby Peixoto: o samba-canção “Nono mandamento”, de Renê Bittencourt e Raul Sampaio, e que fez parte do filme “De pernas pro ar”, co-produção Herbert Richers-Cinedistri,  dirigida por Victor Lima. Cauby imortalizou este sucesso inesquecível na RCA Victor em 20 de dezembro de1957,com lançamento em abril de 58 no 78 rpm n.o 80-1928-A, matriz 13-H2PB-0311. Um fecho realmente de ouro para a seleção desta quinzena do GRB, que por certo irá proporcionar grandes momentos de recordação e entretenimento a vocês  que tanto prestigiam o TM. Quero expressar inclusive meus mais sinceros agradecimentos aos colecionadores Gilberto Inácio Gonçalves e Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez)  pela colaboração, enviando-me alguns dos preciosos fonogramas que compõem esta edição. E agora, luz, câmera, ação... e música!

*Texto e seleção musical de Samuel Machado Filho 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Albertinho Fortuna - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 136 (2015)

Nesta quinzena, o Grand Record Brazil, em sua edição de número 136, focaliza um grande nome da música popular e do rádio no Brasil: Albertinho Fortuna.
Batizado com o nome de Alberto Fortuna Vieira de Azevedo,  o cantor nasceu em Portugal, mais precisamente em Vila Nova de Gaia, no dia 28 de outubro de 1922. Ele e sua família mudaram-se  para Niterói, litoral do Rio de Janeiro, quando Albertinho estava  com apenas seis meses de nascido. Residiam no bairro de Santa Rosa, e o futuro astro estudava no Colégio  Salesiano, destacando-se no coro da instituição de ensino. Aos oito anos, convidado por um amigo da família, foi cantar na Rádio Mayrink Veiga.  Agradou tanto ao público que retornaria várias vezes à emissora, já pedindo um cachê de dez mil-réis. Albertinho prosseguiu seus estudos no Instituto de Humanidades, cujo diretor era o jornalista e compositor Gomes Filho. Ele também dirigia a Rádio Sociedade de Niterói, que estava inaugurando, e Albertinho acabaria sendo,  em 1936, um dos pioneiros dessa estação. Ainda nesse ano, Zezé Fonseca providenciou seu retorno à Mayrink Veiga, solicitando ao seu então diretor artístico, César Ladeira, que o testasse. Albertinho foi devidamente aprovado e contratado pela Mayrink, por um salário mensal de quatrocentos mil-réis, além de receber, também de Ladeira, o slogan de “O garoto que vale ouro”. Estava então na plenitude de seus treze anos de idade, e apresentou-se várias vezes ao lado da maior estrela da Mayrink nesse tempo:  nada mais nada menos que Cármen Miranda!
Albertinho parou de cantar em virtude da mudança de voz, inevitável com o avanço da idade, e após dois anos inativo,  em 1938, retornaria à cena, agora na PRG-2, Rádio Tupi, “o cacique do ar”. Depois de uma temporada na mesma, transferiu-se para a Rádio Educadora do Brasil, a convite de Saint-Clair Lopes e Luiz Vassalo. Em 1940, ingressa na lendária PRE-8, Rádio Nacional, e três anos mais tarde passa a integrar, ao lado de Nuno Roland e Paulo Tapajós, o Trio Melodia, criado para apoio do superprograma “Um milhão de melodias”. Dada sua impressionante qualidade, o trio fez inúmeras gravações em disco, inclusive acompanhando inúmeros cantores famosos de sua época. As carreiras individuais de seus integrantes, paralelamente, prosseguiam sem qualquer problema.  Albertinho fez sua primeira gravação como solista em 1944, na Victor, ao lado das Três Marias, interpretando o samba clássico “Ai, que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago. No ano seguinte, faz nova gravação, agora pela Continental, interpretando a valsa “Meu coração te fala” de Pedro Raimundo,que também o acompanhou ao acordeom e numa declamação. Foi um sucesso! De volta à Victor, obtém êxito no carnaval de 1947 com “Marcha dos gafanhotos”, incluída nesta edição. Entre 1948 e 1951 gravou na Star, futura Copacabana, fixando-se de vez na Continental em 1952.
Albertinho Fortuna tem sua trajetória na MPB marcada pelo repertório de cunho romântico, em especial versões de tangos, que cantava como ninguém. Tanto é assim que, por vários anos, os tangos gravados por Albertinho seriam bastante executados nos programas de rádio das madrugadas,por todo o Brasil.
Albertinho Fortuna morreu em sua cidade adotiva, Niterói, no dia primeiro de julho de 1995, aos 72 anos. Nesta edição do GRB, uma pequena-grande amostra de sua arte e de seu trabalho musical, em doze gravações. Abrindo a seleção desta quinzena, temos “Abraça-me”, bolero de Almeida Rego e Antônio Correia, originalmentre lançado por Anísio Silva,em 1962, e que Albertinho incluiu no LP “Prelúdio...”, de 1963, pela Continental. Em seguida,o tango clássico “Cristal”, de Marianito Mores e José Maria Contursi, em versão de Haroldo Barbosa. A música surgiu em 1944, e suas primeiras gravações argentinas foram feitas pelas orquestras típicas de Anibal Troilo, Oswaldo Fresedo e Francisco Canaro. Vencedora do concurso de tangos “Mejoral”, da Rádio Belgrano de Buenos Aires, “Cristal” teve sua primeira gravação em português por Francisco Alves, em 1945. O registro de Albertinho Fortuna é do LP de 10 polegadas “Tangos inesquecíveis”, lançado pela Continental em 1957. Desse mesmo LP é a faixa seguinte, “Garoa”, versão de Lourival Marques para “Garua”, de Anibal Troilo e Enrique Cadícamo, que a Continental lançaria também em 78 rpm, em janeiro-fevereiro de 1958, sob número 17523-B, matriz C-4078. “Lua do rio” é a versão brasileira do clássico romântico”Moon river”,  balada composta por Henry Mancini para o filme “Bonequinha de luxo  (Breakfast at Tiffany’s)”, produzido pela Paramount em 1961 e nele interpretada por sua atriz principal, Audrey Hepburn.  Abrasileirada pelo grande João “Braguinha” de Barro, foi gravada por Albertinho Fortuna em 1963, na Continental, disco 78-227-A, sendo também faixa do LP “Prelúdio...”.  “Mano a mano”, tango clássico de Carlos Gardel, José Razzano e Celedonio Flores, ganhou letra brasileira de Giuseppe Ghiaroni, que Albertinho interpreta ao lado do Trio Madrigal e de seus companheiros no Trio Melodia, com suporte orquestral de Radamés “Vero” Gnattali. A gravação saiu pela Continental  em maio-junho de 1952, sob número 16582-B, matriz C-2866. Da parceria Carlos Gardel-Alfredo Le Pera é  “Morro abaixo (Cuesta abajo)”, que Gardel interpretou num filme também chamado “Cuesta abajo”, subintitulado no Brasil “O amor obriga”. É outra versão de Ghiaroni, gravada na Continental por Albertinho Fortuna em 18 de junho de 1954, com lançamento em julho seguinte sob n.o 16996-B,matriz C-3405. Mostrando que tangos eram mesmo o seu forte, Albertinho também brilha em “Percal”, de Homero Expósito e Domingo Federico, em versão de Haroldo Barbosa. Sua primeira gravação argentina deu-se em 1943, pela típica de Anibal Troilo, com vocal de Francisco Fiorentino. A versão brasileira foi gravada pela primeira vez por Francisco Alves,em 1944, e o registro de Albertinho saiu pela Continental em maio-junho de 1958 no 78 rpm n.o 17557-A, matriz C-4091, sendo também faixa de abertura do LP de 10 polegadas “Tangos inesquecíveis”. Desse LP também consta “Uno”, outra versão de Haroldo Barbosa, subintitulada “Rosa vermelha”, para mais um clássico da parceria Marianito Mores-Enrique Santos Discépolo. Anibal Troilo, com sua típica, e estribilho de Alberto Marino, lançou “Uno” em 1943, e um ano dpeois, Francisco Alves fez a primeira gravação desta versão. O registro de Albertinho, claro, também saiu em 78 rpm pela Continental, em janeiro-fevereiro de 1958, sob n.o 17523-A, matriz C-4077. Em seguida mais um clássico da parceria Carlos Gardel-Alfredo Le Pera, com letra brasileira de Ghiaroni, “Voltar (Volver)”, gravada por Albertinho para o LP de 10 polegadas “Meus velhos tangos” (Continental, 1955).  “Caminito”,de Juan de Diós Filiberto e Gabino Coría Peñaloza,  abre esse mesmo LP, também em versão de Ghiaroni. A Continental, claro, também disponibilizaria a gravação em 78 rpm, sob número 17356-A, em novembro-dezembro de 1956, matriz C-3893. “Gira, gira (Yira, yira)”, de Discépolo sem parceiro, em outra versão de Ghiaroni, também está no LP de 10 polegadas “Meus velhos tangos”, e, em 78 rpm, é o lado B de “Caminito”, matriz C-3894. Para finalizar, um dos primeiros hits de Albertinho  Fortuna:  a “Marcha dos gafanhotos”, de Eratóstenes Frazão e Roberto Martins, uma das campeãs do carnaval de 1947. Foi imortalizada por Albertinho na Victor em 22 de outubro de 46, com lançamento um mês antes da folia, em janeiro,disco 80-0489-A,matriz S-078631. Um fecho realmente de ouro para esta retrospectiva do GRB, prestando justa homenagem ao eterno Albertinho Fortuna!

* Texto de Samuel Machado Filho 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Cantoras - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 135 (2015)


Para alegria dos amigos cultos, ocultos e associados do TM, o Grand Record Brazil está de novo na área, agora em sua edição de número 135. Desta vez, apresentamos mais um punhado de registros históricos, exclusivamente com vozes femininas, sempre presentes em nosso GRB. São dezoito joias preciosas, de fazer qualquer colecionador vibrar, gravadas entre os anos 1910 e 1930.
Iniciamos nosso retrospecto com Abigail Maia (Porto Alegre, RS, 17/10/1887-Rio de Janeiro,  20/12/1981). Cantora e também atriz, fundou companhia teatral junto com Oduvaldo Vianna, além de se destacar, tempos depois, como radio-atriz na lendária Rádio JESZNacional do Rio de Janeiro. Abigail, cuja discografia como intérprete seria escassa, aqui comparece em três faixas. A primeira é “Chico, Mané, Nicolau”, batuque paulista de autor desconhecido, em gravação mecânica Odeon/Casa Edison de 1916, disco 121173. Já dá fase elétrica de registros fonográficos é a canção “Flor de maracujá”, de Marcelo Tupinambá e Amadeu Amaral. Foi gravada por Abigail na Victor em 24 de fevereiro de 1931, e o disco foi lançado com o número 33425-B, matriz 65112. Por fim, outro registro mecânico, o do “coco baiano” “O cumbuco e o balaio”, mais uma peça de autor ignorado,  em gravação Odeon/Casa Edison de 1916, disco 121172.
Maior nome feminino da música erudita brasileira, aplaudida e consagrada no Brasil e no exterior, tendo sido até mesmo enredo de escola de samba,  Bidu Sayão (Balduína de Oliveira Sayão, Itaguaí, RJ, 11/5/1902-Rockport, Maine, EUA, 13/3/1999), aqui comparece com uma modinha de Barrozo Neto e Nosor Sanches, a “Canção da felciidade”, originalmente lançada em 1928 por uma certa Maria Emma. A gravação de Bidu foi feita na Victor (selo Victrola) em 14 de setembro de 1933, e o disco recebeu o número 4229-B, matriz 65853.
Filha de um diplomata brasileiro e de uma cantora lírica, Gilda de Abreu (Paris, França, 23/9/1904-Rio de Janeiro, 4/6/1979) foi cineasta, atriz, escritora, radialista e cantora. Casou-se,  em 1933, com o também cantor Vicente Celestino, em duradoura união que perduraria até a morte deste, em 1968. Inclusive dirigiu, entre outros, os dois filmes estrelados pelo marido, “O ébrio” (1946) e “Coração materno” (1951). Aqui, Gilda interpreta “Bonequinha de seda”, valsa de sua autoria e Narbal Fontes,  incluída no filme de mesmo nome, da Cinédia, dirigido pelo já citado Oduvaldo Vianna, e do qual foi a atriz principal. Gravação Victor de 10 de novembro de 1936, lançada em dezembro do mesmo ano, disco 34112-A, matriz 80239.
A soprano luso-brasileira Cristina Maristany (Porto, Portugal, 11/8/1906-Rio Claro, SP, 27/9/1966) foi membro-intérprete da Academia Brasileira de Música e, um ano antes de seu falecimento (1965), recebeu a Medalha Carlos Gomes. Consagrada nacional e internacionalmente, assim como Bidu Sayão, Cristina interpreta aqui uma serenata de autoria do compositor mexicano Manuel Ponce, no original em espanhol, “Estrelita”. Gravação Columbia de 1935, em disco número 8144-A, matriz 1087.
Odete Amaral (Niterói, RJ, 28/4/1917-Rio de Janeiro, 11/10/1984), “a voz tropical do Brasil”, aqui interpreta este que é considerado seu primeiro grande sucesso, a marchinha “Colibri”, de Ary Barroso, do carnaval de 1937. Acompanhada pelos Diabos do Céu, de Pixinguinha,Odete gravou a música na Victor em 13 de novembro de 36, com lançamento ainda em dezembro, disco 34120-B, matriz 80255.
Sylvinha Mello (Vitória, ES, 23/2/1914-Paris, França, c. 1978) foi uma das primeiras cantoras brasileiras a fazer sucesso no exterior, particularmente nos EUA, atuando em rádios e casas noturnas . De sua escassa discografia brasileira como intérprete, aqui vai o fox “Canção das águas”, de Joubert de Carvalho,  gravação Victor de  26 de maio de 1936, lançada em julho do mesmo ano, disco 34070-B, matriz 80166.
Laura Suarez (Rio de Janeiro, 23/11/1909-idem, c. 1990) foi uma verdadeira  “garota de Ipanema”, uma vez que foi eleita Miss Ipanema em 1930, sendo considerada uma das mulheres mais bonitas de seu tempo. Além de cantora e compositora, foi também atriz  de teatro (no qual atuou por mais de cinquenta anos), televisão e cinema. Fez toda a sua carreira discográfica na extinta Brunswick, e dela  apresentamos aqui uma canção sua de parceria com Henrique Vogeler (co-autor do clássico “Ai Ioiô”), intitulada “Romance”. O disco saiu em 1931, ano em que a gravadora encerrou suas atividades no Brasil, provavelmente em março, sob número 10159-B, matriz 618.
Membro da alta sociedade carioca, Maria de Lourdes de Assis, aliás Madelou Assis (Rio de Janeiro, 1915-idem, 1956) começou sua carreira em 1932, aos 16 anos,  atuando em um cinema como apresentadora de um espetáculo do qual participaram alguns cantores de sucesso na época. Atuou nas rádios Mayrink Veiga (Rio) , Record, Kosmos e Cruzeiro do Sul (São Paulo),  tendo também feito temporada na Rádio Belgrano de Buenos Aires, e casou-se, em 1934, com o radialista e compositor Valdo Abreu. De sua escassa discografia (apenas cinco discos 78  com oito músicas), apresentamos duas gravações Victor, ambas do disco 33689, e de autoria do futuro esposo, Valdo Abreu, gravado em 31 de maio de 1933 e lançado em agosto do mesmo ano: o samba-canção “Ciúme”, matriz 65758, e, no verso,  a canção “Praia dos beijos”, matriz 65759.
Uma das principais divulgadoras de músicas folclóricas no decorrer dos anos 1930, Sônia Barreto  (pseudônimo de Sônia Luiz Mosciaro), carioca de Santa Tereza, foi também  poetisa  e radialista, atuando como radioatriz, produtora e apresentadora de programas da lendária Rádio Nacional. Soprano lírico-dramática, recebeu medalha de ouro do Instituto Nacional de Música. Ela aqui comparece com três faixas. Para começar, a valsa “História de uma flor”, de Joubert de Carvalho, gravação Victor de 31 de agosto de 1931, lançada em outubro do mesmo ano, disco 33474-B, matriz 65228. Depois, na faixa 14, temos o fox-canção “Descansa, coração!”, versão de Alberto Ribeiro para o standard americano “All of me”, de Gerald Marks e Seymour Simons. Saiu pela Columbia em dezembro de 1932,sob número de disco 22163-B, matriz 381359. Houve outra versão bastante conhecida, em ritmo de iê-iê-iê, assinada por Neusa de Souza e gravada em fins de 1964 pelos Golden Boys, o famoso “Ai de mim”. Por fim, a toada-canção “Beijo azul”, de José Francisco de Freitas, o Freitinhas, e Oswaldo Santiago. Gravada na Victor em 27 de agosto de 1931, é o lado A de “História de uma flor”, matriz 65223. Na faixa 13, uma rara oportunidade de se ouvir a voz da carioca Odaléa Sodré (1924-?), filha do compositor e instrumentista Heitor Catumby. E a faixa escalada é justamente de seu primeiro disco, o Columbia 8112-B, de 1936, gravado na plenitude de seus 12 anos de idade:  o samba “Romance da morena”, de Bucy Moreira e Kid Pepe, matriz 1112.
Elisa (de Carvalho) Coelho (Uruguaiana, RS, 1/3/1909-Volta Redonda, RJ, 2001) deixou gravados 15 discos 78 com 30 músicas, entre 1930 e 1934. Criadora dos clássicos “No rancho fundo” e “Caco velho”, era mãe do jornalista e apresentador de televisão Goulart de Andrade, aquele do bordão “Vem comigo”. Elisinha, como era carinhosamente chamada, aqui comparece com duas gravações Victor, ambas feitas em 11 de junho de 1930, porém lançadas em discos distintos. A primeira é o samba “Escrita errada”, de Joubert de Carvalho, matriz 50397, editada em fevereiro de 1931 sob número 33338-B. E a segunda é a toada “Ciume de caboca”, de Josué de Barros, o descobridor de Cármen Miranda, em parceria com Domingos Magarinos, matriz 50308, lançada em agosto de 1931 sob número 33444-B. para encerrar, temos Jesy (de Oliveira) Barbosa (Campos, RJ, 15/11/1902-Rio de Janeiro, 30/12/1987).Ela foi um talento múltiplo: cantora, compositora, jornalista, poetisa, contista, radialista... Jesy Barbosa marca aqui sua presença com “May”, tango de Renato Leão de Aquino, gravação Victor de primeiro de julho de 1931,lançada em setembro do mesmo ano, disco 33464-B, matriz 65180. E encerrando com brilho mais esta edição do GRB, dedicada a cantoras que, se depender de iniciativas como a nossa, jamais serão esquecidas!

Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.

      

terça-feira, 10 de março de 2015

Inezita Barroso

Em pleno Dia Internacional da Mulher,  a 8 de março deste 2015, tivemos mais uma perda irreparável para nossa música popular, notadamente a caipira ou sertaneja de raiz. É claro que os amigos cultos, ocultos e associados do TM sabem muito bem de quem estamos falando: Inês Madalena Aranha de Lima, ou, como ficou para a posteridade, Inezita Barroso. E isso poucos dias após seu aniversário de 90 anos, vitimada por uma pneumonia.  Enfim, cada um tem um destino...  O curioso é que Inezita, considerada a mais autêntica intérprete do cancioneiro caipira brasileiro, veio ao mundo justamente em São Paulo, Capital, no dia 4 de março de 1925. De família tradicional, começou a cantar bem cedo, aos sete anos de idade. Aos nove anos, já admirava o escritor e poeta Mário de Andrade, um dos ícones do Modernismo, e seu vizinho na Rua Lopes Chaves, no bairro paulistano da Barra Funda, a quem esperava passar diariamente enquanto brincava de patins.  Aos onze anos, começou a estudar piano, e mais tarde cursou Biblioteconomia. A sua carreira artística se inicia nos anos 1940, na Rádio Clube do Recife, interpretando canções folclóricas recolhidas por seu ilustre vizinho na Barra Funda paulistana, Mário de Andrade, acompanhando-se ao violão. Após se casar, em 1950, retoma as atividades musicais, ingressando, a convite do compositor Evaldo Ruy, na PRA-9, Rádio Bandeirantes de São Paulo  (então “a mais popular emissora paulista”). Teve a honra de participar da transmissão inaugural da primeira emissora de televisão brasileira, a PRF-3, TV Tupi, e trabalhou como cantora exclusiva da PRG-9, Rádio Nacional (hoje Globo). Um ano depois, transfere-se para a Record, então “a maior”. Ainda em 1951, grava seu primeiro disco, na Sinter, interpretando  ”Funeral d’um rei nagô” (Hekel Tavares-Murilo Araújo) e “Curupira” (Waldemar Henrique).  Aqui, ela já demonstra empenho na pesquisa e na divulgação de temas folclóricos, uma de suas marcas registradas. Em 1953, assina contrato com a RCA Victor, onde estreou gravando “Isto é papel, João?” (Paulo Ruschell) e “Catira” (adaptação de  R. de Souza). Em seu terceiro disco nessa marca, obtém seu primeiro  grande sucesso com “Marvada pinga”, moda de viola de autoria do professor Ochelcis Laureano, um dos carros-chefes de suas apresentações pelo resto da vida. Curioso é que, no lado B, apareceu o samba-canção “Ronda”, de Paulo Vanzolini, que passou despercebido na ocasião e só teve êxito quando regravado por outros cantores, sendo hoje um clássico.  Outras expressivas gravações de Inezita na RCA Victor foram: “Os estatutos da gafieira” (samba-crônica de Billy Blanco),”Taieiras”, “Retiradas” e “Coco do Mané” (esta, de autoria de Luiz Vieira), entre outras.  No cinema, atuou em filmes como “Ângela” (1951), “Destino em apuros” (considerado o primeiro filme nacional produzido em cores, de 1953), “É proibido beijar”, “O craque” (ambos de 1954), “Mulher de verdade” (1955), pelo qual recebeu o prêmio Saci de melhor atriz, conferido pelo jornal ‘O Estado de S. Paulo”, e “Carnaval em lá maior” (também de 1955). Em 1954, estreou na televisão, com um programa semanal na TV Record.  Um ano mais tarde, 1955, Inezita muda de gravadora, indo para a Copacabana, onde lança seu primeiro LP, sem título, incluindo músicas como “Banzo”, “Viola quebrada” e “Mineiro tá me chamando”, além de uma regravação de “Funeral d’um rei nagô”. Permaneceu nessa gravadora por mais de vinte anos, e lá deixou memoráveis trabalhos em disco, alguns deles incluídos neste repost, e dos quais falaremos a seguir.  Outros sucessos de Inezita são “Lampião de gás” (outro de seus carros-chefes, composto por Zica Bergami, então mulher de renome na alta-sociedade paulistana), “Estatuto de boate” (outro samba-crônica de Billy Blanco) e releituras de clássicos como “Fiz a cama na varanda”, “De papo pro á” , “Nhapopé” , “Negrinho do pastoreio” e “Boi bumbá”. Inezita fez sucesso também no exterior, uma vez que, de passagem pelo Brasil, celebridades como o ator francês Jean-Louis Barrault,  o maestro Roberto Inglês e o ator italiano Vittorio Gassman , levaram os discos de Inezita para a Europa, onde tiveram maciça divulgação pelo rádio. O currículo da cantora-folclorista inclui apresentações no Uruguai, na extinta União Soviética, Israel , Paraguai, Uruguai e EUA, além de troféus como Roquette Pinto  e o Prêmio Sharp de Música Brasileira.  Durante toda essa longa e gloriosa trajetória, Inezita, conhecida como “a rainha do folclore”,  conservou a qualidade de sua voz, aliás ela foi uma das cantoras veteranas que melhor conseguiu essa proeza.  No início da década de 1980, passou a apresentar, na TV Cultura de São Paulo, o famoso “Viola, minha viola” (“Eta programa que eu gosto!”),  importantíssimo instrumento de divulgação da cultura caipira e regional brasileira, a princípio comandado pelo radialista Moraes Sarmento. Inezita,  no começo, dividiu a apresentação com Sarmento, que mais tarde passou a se dedicar apenas ao rádio. Daí por diante, Inezita firmou-se como a única apresentadora do “Viola, minha viola”, e o programa tornou-se o musical mais lôngevo  da história da televisão brasileira.  Também apresentou, no SBT, o programa “Inezita”, dentro de uma faixa sertaneja que a emissora possuía aos domingos pela manhã, mas que não ficou muito tempo no ar. No rádio, apresentou ainda os programas “Mutirão”, na Rádio USP”, e “Estrela da manhã”, na Cultura AM. Continuou a se apresentar em shows por todo o Brasil, tendo a seu lado, em alguns deles,  nomes como a dupla Pena Branca e Xavantinho, a violeira Helena Meirelles e Oswaldinho do Acordeom. Autêntica “doutora” em folclore, Inezita passou a lecionar a matéria em faculdades e universidades, a partir de 1982. Sua vasta discografia abrange  cerca de25 discos em 78 rpm, e quase 30 álbuns, entre LPs e CDs, além de alguns compactos.
Em homenagem à agora imortal Inezita Barroso, o Toque Musical decidiu apresentar uma repostagem especial de seis de seus álbuns, a saber:
DANÇAS GAÚCHAS (Copacabana, 1955) – Segundo LP de Inezita, em 10 polegadas, e por ela própria  considerado o melhor trabalho de sua carreira. Nele, a “rainha do folclore” interpreta composições de Luiz Carlos Barbosa Lessa (1929-2002), importante ícone da cultura riograndense, e de seu parceiro de pesquisa, Paixão Cortes. Acompanhada pelo grupo folclórico de Barbosa Lessa, Inezita nos traz temas como “Rancheira da carreirinha”, “Balaio”, “Maçarico” e “Chimarrita balão”, que voltaria a gravar em 1961, desta vez com orquestra, em LP de 12 polegadas com o mesmo título. Bah, tchê!
LÁ VEM O BRASIL (Copacabana, 1956) – terceiro álbum de Inezita, ainda em 10 polegadas.  Uma pequena-grande  obra-prima da fonografia brasileira, na qual a intérprete, acompanhando-se ao violão, apresenta músicas como “O carreteiro”, de Barbosa Lessa, “Galope à beira-mar”, de Luiz Vieira”, “Cantilena”, motivo de negros do Recôncavo Baiano adaptado por Heitor Villa-Lobos e recriado por Sodré Viana, “Berceuse da onda”, poema de Cecília Meirelles musicado por Oscar Lorenzo Fernandez, e a faixa-título, “Lá vem o Brasil”, de Nélson Ferreira e Rafael Peixoto.
 INEZITA APRESENTA (Copacabana, 1958) – Um de seus melhores discos, a começar pela capa,  um primoroso trabalho de arte gráfica. Acompanhada pela orquestra e coro da Rádio Record, com arranjos e regências de Hervê Cordovil, e do Regional de Miranda, e participação do grupo vocal Titulares do Ritmo, Inezita interpreta obras de cinco  compositoras:  Babi de Oliveira, Juracy Silveira, Zica Bergami (autora do clássico “Lampião de gás”), Leyde Olivé e Edvina de Andrade.  Batem ponto aqui temas como “Lamento”, “Batuque”, “Conversa de caçador” e “Caboclo do Rio”, esta última curiosamente regravada um ano mais tarde pelo americano Nat King Cole, em português,  durante temporada no Brasil.
 CANTO DA SAUDADE (Copacabana, 1959) – Outro álbum com bonita capa e repertório bem cuidado. Inezita tem aqui, novamente, a presença de Hervê Cordovil nas orquestrações e nas regências, e a participação dos Titulares do Ritmo. Um disco repleto de joias como “De papo pro á”, “Meu limão, meu limoeiro” (que  voltaria a ser sucesso anos mais tarde com Wilson Simonal), “Luar do sertão”,  “Fiz a cama na varanda” e até mesmo “Na Baixa do Sapateiro”, clássico samba-jongo do mestre Ary Barroso.
CLÁSSICOS DA MÚSICA CAIPIRA (Sabiá/Copacabana, 1962) – Mais um grande trabalho da notável Inezita, no qual ela mostra por que foi uma das mais autênticas intérpretes do cancioneiro caipira do Brasil. Batem ponto temas como “Chico Mineiro”, “Tristeza do jeca”, “Boi de carro”, “Sertão do Laranjinha”, “Baldrana macia” e “Pingo d’água”. Ô trem bão...
 VAMOS FALAR DE BRASIL, NOVAMENTE... (Copacabana, 1966) – Como indica o título, este álbum vem a ser uma sequência do bem-sucedido “Vamos falar de Brasil” (1958). Aqui, Inezita tem as ilustres companhias do acordeonista Caçulinha, com seu regional, e Guerra Peixe, com sua orquestra e coro. O repertório tem  peças do quilate de “Cais do porto”, “Nação nagô” (ambas do mestre Capiba), “Maracatu elegante” (José Prates) , “Dança negra” (Hekel Tavares e Sodré Viana) e “Dança do guerreiro” (de Hekel com Luiz Peixoto).
SUCESSOS DE MÁRIO ZAN – FESTAS JUNINAS (Brasidisc, 1986) – Aqui, Inezita Barroso tem uma excelente participação como marcadora de quadrilha junina.  Completando o programa, Mário Zan (1920-2006), verdadeiro mago da sanfona, desfila uma seleção de clássicos das festas juninas, tipo “Chegou a hora da fogueira”, “Isto é lá com Santo Antônio”, “Capelinha de melão” etc.  Anarriê!

 Com a repostagem destes seis trabalhos de Inezita Barroso, o Toque Musical, por certo, presta uma digna e honrosa homenagem àquela que, incontestavelmente, foi a mais autêntica intérprete de nossa música regional. 

*Texto de Samuel Machado Filho

domingo, 8 de março de 2015

Cantando A Mulher - Coletânea Toque Musical (2015)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Bom dia, em especial, a todas as mulheres, cultas e ocultas! Hoje é o dia delas, o Dia Internacional da Mulher! Eu não me recordo de já ter feito aqui alguma homenagem nessa data para você, mulher. Mas pode ter certeza, estou sempre pensando, sintonizado em suas ondas. Ah, mulheres... de todos os tipos, de todas as horas... mães, esposas, amantes, amigas, irmãs. Mulher até Presidente. Elas estão em todas. E o que seria de nós, homens, sem elas? Adoro esse ser que me completa em todas as suas vertentes e vértices. Êta bicho bão, sô!
Para homenageá-las, criei então essa pequena coletânea, um tanto irregular e talvez até injusta por não acrescentar tantas outras belas e talvez até mais apropriadas composições, que temos no cancioneiro popular. É, eu realmente podia ter escolhido mais músicas. Por certo, melodias que exploram a temática mulher é coisa que não nos falta. Mas eu achei por bem ficarmos apenas em 20 músicas, sendo essas tão variadas quanto as próprias escolhas de postagem do Toque Musical. O importante é agradar aos gregos e troianos, misturar mineiros e baianos, alhos com bugalhos. Porém, acima de tudo, festejando sempre a mulher. Parabéns a todas por este dia!

cúmplice - juca chaves
elegia - péricles cavalcanti
mulher - zé renato
tigreza - caetano veloso
mulher brasileira - benito di paula
mulheres - martinho da vila
aí que saudades da amélia - noite ilustrada
eu quero essa mulher assim mesmo - monsueto
todas as mulheres do mundo - marcus pitter
sexo frágil - erasmo carlos
todas as mulheres do mundo - rita lee
eu gosto de mulher - mr. catra
eu gosto é de mulher - ultrage a rigor

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domingo, 1 de março de 2015

Rio450 - Valsa De Uma Cidade (2015)


Bom dia, amigos cultos e ocultos! Parabéns, Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro! Parabéns a todos os cariocas, privilegiados, de morarem num dos lugares mais bonitos do mundo e que hoje, dia 01 de março de 2015 está completando 450 anos! Que bacana! Eu não sou carioca, mas tenho uma leve impressão de que já fui em outras encarnações. Me identifico demais com essa cidade e creio que qualquer um. O Rio é mesmo uma cidade encantadora e inspiradora. Não é por acaso que todos os artistas convergem sempre para lá. Não conhecer o Rio de Janeiro é um pecado. Um dia eu acabo me mudando para lá. Meu grande prazer de ir ao Rio é poder andar pelo Centro e pelos bairros antigos, parece que eu me reencontro. Rio de Janeiro, cidade maravilhosa! Por essas e por outras é que eu não poderia deixar de prestar aqui a minha homenagem, afinal, é no Rio que boa parte da boa música brasileira nasceu. Eu pensei inicialmente em fazer uma coletânea de músicas que falassem do Rio, mas me perdi entre as milhares que encontrei. Além do mais, iria me dar muito trabalho para confeccionar a capinha e listar as centenas de músicas. Seria o melhor, uma coletânea com diferentes estilos tendo como tema o Rio de Janeiro, mas vou deixar essa para uma outra oportunidade. Resolvi assim então eleger uma música que fosse 'aquela'. Qual tema seria o melhor? Claro, a 'Valsa de uma cidade", belíssima composição de Antônio Maria e Ismael Neto! Mais uma vez eu acabei caindo na mesma situação, dezenas de versões e das mais variadas. Decidi então ficar apenas com aquelas que o buscador de arquivos do meu computador conseguiu identificar. Dessas centenas, escolhi trinta versões, talvez as mais conhecidas. Entre essas, finalizando, eu incluí aquela antiga e curiosa paródia que faz parte daquela também curiosa bolacha de alumínio que um dia eu apresentei a vocês e denominei aqui como o 'Disco X'. Um pouco de picardia sempre fez parte do prato carioca ;) e eu não poderia deixar essa fora ;)
Parabéns Rio de Janeiro! Que você continue sempre linda e maravilhosa. Mesmo a pesar daqueles que fazem de tudo para detonar a cidade. Viva o Rio! Viva o povo carioca!

dick farney ao vivo
dick farney e orquestra
dick farney trio
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paródia (disco x)

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Jorge Veiga - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 134 (2015)

Em sua edição de número 134, o Grand Record Brazil, agora com periodicidade quinzenal, tem a satisfação de apresentar um dos mais expressivos sambistas que o Brasil já teve. Estamos falando de Jorge Veiga.
Com o nome completo de Jorge de Oliveira Veiga, nosso focalizado veio ao mundo no bairro do Engenho de Dentro, zona norte do Rio de Janeiro, em 14 de abril de 1910. Teve infância de menino pobre, trabalhando como engraxate, vendedor de frutas e pirulitos. Ao chegar à fase adulta, exerceu o ofício de pintor de paredes.  Um belo dia, ao ouvi-lo cantar durante o serviço, o dono de uma casa comercial que o futuro astro estava pintando percebeu suas qualidades de intérprete. E conseguiu que ele cantasse em um programa da Rádio Educadora do Brasil (PRB-7),  onde fazia imitações de Sílvio Caldas durante o programa “Metrópolis”, pontapé inicial de sua carreira artística, atuando nessa época também em circos e pavilhões. A estreia de Jorge Veiga em disco aconteceu em 1939, participando da gravação da rancheira “Adeus, João”, composta e executada pelo acordeonista Antenógenes Silva, apenas vocalizando o refrão.  Em 1942, quando atuava na Rádio Guanabara, conheceu Paulo Gracindo, figura que teve grande importância na carreira do cantor, estimulando-o a cantar sempre com um sorriso nos lábios, garantindo a leveza de suas interpretações e a diversão dos ouvintes. Seu repertório era composto, basicamente, de sambas malandros e anedóticos, além de sambas de breque. E, no carnaval de 1944, consegue seu primeiro sucesso:  o samba “Iracema”,de  Raul Marques e Otolindo Lopes. No rádio, atuou ainda na Tupi e, mais tarde, na lendária Nacional, onde Floriano Faissal criou o bordão com o qual o cantor sempre iniciava suas apresentações: “Alô, alô, senhores aviadores que cruzam os céus do Brasil! Aqui fala Jorge Veiga, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Estações do interior, queiram dar seus prefixos para guia de nossas aeronaves. Mantendo sua popularidade por cerca de vinte anos, Jorge Veiga lançou sucessos inesquecíveis, tanto no carnaval como no meio de ano, tais como “O que é que eu tenho com isso?”, “Rosalina”, “Vou sambar em Madureira”, “Eu quero é rosetar”, “Bigorrilho”, “O que é que há?”, “Coração também esquece”, “Cinzas”, “O que é que eu dou”, “Senhor comissário”, “Reza por nosso amor”, “Cala a boca Etelvina”, “História da maçã”, “Orora analfabeta”, “Brigitte Bardot” e “Café soçaite (Depois eu conto...)”. Com esta última, um samba de Miguel Gustavo  que satirizava a alta sociedade carioca (e sua sequência, “Boate Trá-lá-lá”), criou,no rádio e na TV, a imagem do malandro grã-fino, apresentando-se sempre de smoking.  Gravou na Odeon, Continental, Copacabana e RCA Victor,ao longo de sua carreira. Jorge Veiga faleceu em seu Rio de Janeiro natal em 29 de maio de 1979, aos 69 anos de idade. Nesse ano, teve lançado seu último álbum, “O eterno Jorge Veiga”, pela CBS.

 Nesta edição do GRB, um pouco da arte, do estilo inconfundível e do bom humor de Jorge Veiga, em doze raras e preciosas gravações. Abrindo esta seleção, temos o samba “A vida tem dessas coisas”, de Raul Marques e Djalma Mafra, lançado pela Continental em junho de 1946 com o número 15639-B, matriz 1411, no qual é acompanhado pela inconfundível flauta do mestre Benedito Lacerda, a frente de seu regional. Em seguida, o cantor mostra que também era bom de baião junino em “Eu fiz uma prece”, de Bucy Moreira, Ary Cordovil e Araguari, lançado pela Copacabana em maio de 1955 sob número 5408-B, matriz M-1160, tendo também aparecido no LP coletivo de 10 polegadas “Baile na roça”. Na terceira faixa, o bom samba “Conversa, Raul”, de Gil Lima e José Batista, em que Jorge Veiga é acompanhado pelo conjunto de outro Raul, o trombonista Raul de Barros. Gravação Continental de 11 de março de 1948, lançada em maio-junho do mesmo ano sob número 15890-B, matriz 1801. “Cabo Laurindo” é um samba dos mestres Haroldo Lobo e Wilson Batista exaltando a figura exemplar do personagem-título, que saiu da favela como soldado para lutar na Segunda Guerra Mundial e voltou trazendo a Cruz da Vitória. Ao mesmo tempo, chamava a atenção para uma contradição da época: se os pracinhas brasileiros haviam ido lutar no exterior contra ditaduras estrangeiras, por que manter uma dentro de seu próprio país, no caso,o Estado Novo getulista?  Gravação Continental de 18 de junho de 1945, lançada em julho do mesmo ano sob número 15381-B, matriz 1172. Logo em seguida temos o lado A, matriz 1171, “Na minha casa mando eu”, samba de outro mestre, Cyro de Souza. A marchinha “Pode ser que não seja”, de João de Barro, o Braguinha, e Antônio Almeida, foi um dos hits do carnaval de 1947.Jorge Veiga a gravou na Continental em 20 de agosto de 46, matriz 1577, e o registro apareceu em disco duas vezes: a primeira em dezembro desse ano com o número 15750-A, e a primeira em fevereiro de 47, já em plena folia, com o número 15762-A. Na primeira edição, apareceu o samba “Martírio”, de Haroldo Lobo e Pery Teixeira, mas, sabe-se lá por que razão, essa tiragem desapareceu do catálogo da Continental, não havendo nenhum exemplar nas mãos de colecionadores. Teria sido de fato comercializada? “Deixa eu viver minha vida” é um samba de Ari Monteiro, lançado pela Continental em maio-junho de 1949 sob número 16076-A, matriz 2062, sendo o acompanhamento do conjunto de Geraldo Medeiros. “Caboclo africano” é um samba-choro de Zé e Zilda, “a dupla da harmonia”, e foi gravado por Jorge Veiga na Continental em 30 de maio de 1946, com lançamento em outubro do mesmo ano, disco 15713-A, matriz 1501. “Medalha dourada”, outro bom samba, é de Otolindo Lopes e Arnô Provenzano, e a Continental o lançou em março-abril de 1950 sob número  16173-B,matriz 2232. “Carne de gato”, samba de Ary dos Santos e Gentill Leal,  é o lado B de “Caboclo africano”, matriz 2063. “Testamento do sambista”, de Raul Marques e Alberto Maia, vem a ser o lado A de ”Conversa, Raul”, matriz 1800. Para encerrar, temos a gravação de estreia de  Jorge Veiga na Continental:  o samba “Morena linda”, de João Martins e Otolindo Lopes, que saiu em junho de 1944 sob número 15160-A, matriz 787. Enfim, uma pequena-grande amostra do legado deixado por aquele que foi cognominado com justiça, “o caricaturista do samba”.Com vocês, o inesquecível Jorge Veiga! 

* Texto de Samuel Machado Filho 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Pixinguinha 2 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 133 (2015)

E chegamos à edição de número 133 do Grand Record Brazil, “braço de cera” do Toque Musical. Aqui,apresentamos a segunda e última parte de nossa retrospectiva dedicada a esse grande mestre da MPB que foi Pixinguinha (1897-1973). Desta vez, apresentamos 14 raridades de fazer qualquer colecionador vibrar, gravações essas que, em sua maior parte, foram feitas ainda no processo mecânico ou acústico, correspondendo ao glorioso início da carreira do mestre Pizindim, sendo algumas outras já do processo elétrico, quase todas de sua própria autoria.

Para abrir esta seleção de verdadeiras raridades, foi escalada a primeiríssima gravação do mais popular, o mais difundido e o que recebeu maior número de arranjos  entre todos os sucessos de Pixinguinha: nada mais nada menos que “Carinhoso”, choro que ele compôs em 1917, mas que ficou engavetado por mais de 10 anos, uma vez que o próprio Pixinguinha o considerava extremamente “jazzificado”.  A Orquestra Típica Pixinguinha-Donga fez este histórico registro, que a Parlophon lançou em dezembro de 1928, no início das gravações elétricas brasileiras, com o número de disco 12877-B, matriz 2048. Ressalte-se que, só nove anos mais tarde (1937)  é que “Carinhoso” recebeu  letra, assinada por João de Barro, o Braguinha, e magistralmente gravada por Orlando Silva. Logo depois, outra relíquia imperdível:  a valsa “Rosa”, executada pelo próprio Pixinguinha à flauta, com a maestria habitual, à frente de seu “Choro”. Verdadeira relíquia mecânica da Odeon/Casa Edison, datada de 1917,disco 121365. E outra composição dele que Orlando Silva gravou em 1937, com letra de autoria controvertida, embora a partitura impressa  informe que Pixinguinha também fez os versos. Estes, segundo alguns estudiosos, teriam sido escritos, na verdade, por um mecânico do Engenho de Dentro, muito amigo de Pixinguinha, cujo nome era Otávio de Souza.  Já da fase elétrica de gravação é o choro “Vamos brincar”, em mais uma  magnífica execução de flauta do autor.  Saiu pela Odeon em maio de 1928,sob número 10163-A, matriz 1566. E em seguida ainda tem o lado B, “Ainda existe”, matriz 1567, choro com a qualidade habitual do mestre, em composição e execução de flauta.  O tango (nada a ver como argentino) “Os dois que se gostam” é gravação mecânica de 1919, disco Odeon /Casa Edison 121613. De 1926 é a gravação do choro “Tapa buraco”, disco Odeon/Casa Edison 123067. Em seguida temos a polca “Pretensiosa”, em solos de bandoneon, por executantes  não-identificados no selo original.  A gravação saiu pela Parlophon em outubro de 1928, disco 12848-A, matriz 1962. Voltamos depois a ouvir a flauta do então jovem Pixinguinha no seu samba “Eu também vou”, em registro Odeon/Casa Edison de 1926, disco 122100. O tango (brasileiro, é claro) “Os Oito Batutas” alude ao conjunto que o próprio Pixinguinha fundou, e foi gravado por ele à frente de seu grupo em 1919, disco Odeon/Casa Edison 121610. Logo depois, a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga executa “Os teus beijos”, samba amaxixado de autoria de Felisberto Martins, que foi pianista e dirigente de gravadora.  Registro Parlophon de 24 de outubro de 1928, lançado em dezembro do mesmo ano sob número 12876-B, matriz 2062. A faixa  11 nos traz a gravação original do choro “Recordando”, com o próprio Pixinguinha em outro imperdível solo de flauta. Ele o imortalizou na Odeon em 19 de junho de 1934, mas o disco só saiu em março de 35, sob número 11204-A, matriz 4869. Confira, no volume anterior, a regravação feita por Jacob do Bandolim em 1950, com o título modificado para “Teu aniversário”. Depois temos outro choro clássico do mestre Pizindim na gravação original: o célebre “Lamento” (mais tarde “Lamentos”, no plural) executado pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga.  Saiu pela Parlophon em novembro de 1928 com o número 12867-A, matriz 2046. Teve duas regravações por Jacob do Bandolim (a primeira delas apresentada em nosso volume anterior) e receberia letra posterior de Vinícius de Moraes. A mesma orquestra executa  em seguida o maxixe “Desprezado”, igualmente do mestre Pizindim, em gravação lançada pela mesmíssima Parlophon em janeiro de 1929, disco 12893-A, matriz 2050. Encerrando com chave de ouro este festival de verdadeiras  joias raras, apresentamos o imperdível registro original do tango (depois choro) “Sofres porque queres”, verdadeira obra-prima de Pixinguinha que ele mesmo executa à frente de seu “choro”. Obra-prima que ele imortalizou na Odeon/Casa Edison em 1917, em disco número 121364. Mais tarde ele regravaria a música ao saxofone,em dupla (e com a co-autoria) do flautista Benedito Lacerda.  Enfim, são verdadeiras relíquias que, por certo, enriquecerão as coleções de tantos quantos apreciem nossa melhor música popular, sobretudo por seu inestimável valor artístico e histórico. Simplesmente imperdíveis!

* Texto de Samuel Machado Filho 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Pixinguinha 1 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol.132 (2015)

Um verdadeiro gênio da música popular brasileira.  Uma perfeição em tudo que fez: flautista, saxofonista, compositor,  arranjador.  Um autêntico mestre.  E é justamente a obra de Alfredo da Rocha Viana Júnior, aliás, Pixinguinha, que o Grand Record Brazil tem a honra de focalizar nesta e na próxima edição.
Esta autêntica legenda de nossa música popular veio ao mundo no bairro do Catumbi, Rio de Janeiro, no dia 23 de abril de 1897. Seu pai, funcionário dos correios e também flautista, possuía uma vasta coleção de partituras de choros antigos.  Nosso focalizado aprendeu música em casa,tendo inclusive aulas de flauta com Irineu “Batina” de Almeida,  fazendo parte de uma família com vários irmãos músicos, entre eles Otávio Viana, o China. Foi ele quem conseguiu para o irmão seu primeiro emprego. Pixinguinha começou a atuar como músico ainda adolescente, em 1912, em cabarés da Lapa, e depois substituiu o flautista titular na orquestra da sala de projeção do Cine Rio Branco.  Continuou atuando, nos anos seguintes, em cinemas, casas noturnas, ranchos carnavalescos e no teatro de revista, e nessa época também fez suas primeiras gravações em disco.  Aos 14 anos, fez sua primeira composição, o choro “Lata de leite”. Integrou, ao lado de Donga e João Pernambuco, o Grupo Caxangá e, a partir deste, em 1919, formou outro conjunto que se tornaria famoso:  Os Oito Batutas, que tocava na sala de espera do Cine Palais.  Um dos mais assíduos frequentadores dessas audições dos Batutas era Ruy Barbosa, que sempre pedia que eles tocassem “Bem-te-vi”, de Catulo da Paixão Cearense.  Os Oito Batutas se apresentaram ainda na França e na Argentina, onde inclusive gravaram uma série de discos na Victor de Buenos Aires.  Mais tarde, formou a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, que gravava na Parlophon, subsidiária da Odeon. Outro ilustre fã do mestre do choro era o escritor Mário de Andrade, a quem Pixinguinha forneceu, em 1926, os elementos para a cena de macumba de sua obra-prima, o romance “Macunaíma”.
Contribuindo para que o choro brasileiro encontrasse uma forma musical definitiva, Pixinguinha foi contratado, em 1929, pela recém-instalada filial brasileira da gravadora Victor (depois RCA Victor), como instrumentista, arranjador e maestro. Nessa época dividia com Radamés Gnattali a responsabilidade de reger a Orquestra Victor Brasileira (ou Orquestra Típica Victor). Nessa gravadora também formou o Grupo da Guarda Velha e, mais tarde, a orquestra Diabos do Céu, acompanhando nas gravações os cantores contratados da empresa nessa época, tais como Cármen Miranda, Sílvio Caldas, Gastão Formenti, Francisco Alves, Mário Reis, Patrício Teixeira, Carlos Galhardo,etc.  Também formou a Orquestra Columbia de Pixinguinha, igualmente acompanhando os cantores nas gravações de estúdio dessa marca, futura Continental. Mais tarde, em 1937, formou o conjunto Cinco Companheiros. Em 1940, a convite do maestro americano Leopold Stokowski, então em turnê no  Brasil, a bordo do navio “Uruguai”, Pixinguinha organizou um grupo de músicos e cantores brasileiros para fazer gravações . Estas, feitas no próprio navio, seriam lançadas nos EUA em dois álbuns de 78 rpm, a raríssima série “Native brazilian music”.
Nos anos 1940, talvez por dificuldades de embocadura, Pixinguinha teve de trocar a flauta pelo saxofone, e realizou, ao lado do flautista Benedito Lacerda,uma série de gravações  antológicas, até hoje bastante procuradas por estudiosos e pesquisadores da MPB.  Na década de 1950, formou a Turma da Velha Guarda, ao lado de velhos companheiros, tais como Almirante, Donga, Bide e J. Cascata, com quem inclusive gravou LPs rememorativos na Sinter e participou, em 1954, do Festival da Velha Guarda, promovido pela Rádio Record de São Paulo. Em 1962, fez a trilha sonora do filme “Sol sobre a lama”, e ganhou novos parceiros, tais como Vinícius de Moraes e Hermínio Bello de Carvalho. Com este último, fez a música “Fala baixinho”, escrita no hospital após um enfarte que sofrera, em 1964, e finalista em um festival.  Em 1968, gravou, ao lado de João da Baiana e Clementina de Jesus, o álbum “Gente da antiga”, produzido justamente por Hermínio.

 Mestre Pixinguinha faleceu em seu Rio de Janeiro natal, a 17 de fevereiro de 1973, de infarto, na sacristia da Igreja da Paz, no bairro de Ipanema, onde assistia a um batizado, ostentando a mesma elegância com que sempre viveu. E deixando um legado precioso e importante para quem estuda e pesquisa nossa música popular. Uma parte dele o GRB começa a oferecer agora, apresentando, neste primeiro volume, 12 gravações preciosíssimas, todas feitas na RCA Victor.  Para começar, Jacob do Bandolim executa o choro “Teu aniversario”, originalmente intitulado “Recordando” e assim gravado pelo próprio Pixinguinha em 1935. O registro de Jacob data de 30 de junho de 1950 e saiu em setembro do mesmo ano, disco 80-0688-B, matriz S-092700. O próprio Pixinguinha, ao saxofone, em dueto com Benedito Lacerda, vem em seguida com outro expressivo choro, “Proezas de Sólon”, em gravação de 4 de junho de 1946, lançada em agosto de 47 sob número 80-0534-B, matriz S-078536. E logo depois, uma raridade: Pixinguinha cantando (!) um lundu que fez com Gastão Viana,“Yaô”, originalmente lançado em 1938 por Patrício Teixeira, com palavras africanas na letra: “akicó” (galo), “pelu adié” (o peru rodopia entre as galinhas), “jacutá” (casa) e “Yaô” (mulher filha de santo). Pixinguinha fez seu registro na RCA Victor em 7 de julho de 1950, com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 80-0692-A, matriz S-092707. O duo Pixinguinha (sax)-Benedito Lacerda (flauta) volta em seguida apresentando “Segura ele”, choro  que o próprio mestre gravou pela primeira vez, como solista de flauta, em 1930. Esta regravação Victor  (com Benedito Lacerda na co-autoria, por acordo comercial que havia entre ele e Pixinguinha) data de 20 de maio de 1946, lançada em outubro do mesmo ano, disco 80-0447-B, matriz S-078520. Uma amostra do talento de Pixinguinha como orquestrador e maestro vem em seguida com a polca (de sua autoria, assim como todas as faixas aqui reunidas) “Marreco quer água”, com ele mesmo regendo sua orquestra. Gravação RCA Victor de 16 de abril de 1959, lançada em julho seguinte sob número 80-2081-A,matriz 13-K2PB-0627. Jacob do Bandolim volta em seguida, recordando outra obra-prima de Pixinguinha, o choro “Sofres porque queres”, que mestre Pizindim (apelido que lhe teria sido dado por sua avó, significando,em africano, “menino bom”)  lançou como solista de flauta, em 1917. Jacob o regravou pela RCA Victor em 10 de julho de 1957, com lançamento em  setembro seguinte sob número 80-1845-A, matriz 13-H2PB-0165. Temos depois o lado B desse mesmíssimo 78, matriz 13-H2PB-0166, onde Jacob revive outro choro conhecidíssimo do mestre Pixinguinha: “Cochichando”, que antes se chamava “Cochicho” e teve sua primeira gravação em 1944, na voz do cantor Déo, com letra de Braguinha e Alberto Ribeiro. Depois, vem o clássico “Lamento” (que, mais tarde, teria seu título mudado para “Lamentos”, no plural). Lançado originalmente em 1928 pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, é revivido aqui pelo bandolim mágico do mestre Jacob em gravação RCA Victor de 14 de março de1951, lançada em junho do mesmo ano, disco 80-0767-A, matriz S-092905. Jacob do Bandolim faria uma gravação ainda melhor deste choro em 1967, integrando o LP “Vibrações”.  O duo Pixinguinha-Benedito Lacerda retorna depois com outro grande choro, “Pagão”, gravação RCA Victor de 12 de junho de 1946, lançada em março de 47, disco 80-0498-B, matriz S-078662. Eles executam ainda outro choro, “Vagando”, gravação de 26 de dezembro de 1950, lançada pela marca do cachorrinho Nipper em março de 51,disco 80-0746-B, matriz S-092817. “Paciente”, choro executado pela orquestra do próprio Pixinguinha com ele à frente, foi gravado em 16 de abril de 1959, matriz 13-K2PB-0628, e é o lado B do 78 de “Marreco quer água”. A faixa seguinte, outro choro clássico, é “Um a zero”, que Pixinguinha compôs em 1919, por ocasião da conquista do Campeonato Sul-Americano de Futebol pelo Brasil, frente ao Uruguai,. pela contagem que dá título á composição.  Lançado originalmente pela dupla Pixinguinha-Benedito Lacerda em 1946, é aqui revivido por Jacob do Bandolim em gravação RCA Victor de 13 de junho de 1955, lançada em  agosto seguinte sob número 80-1476-B, matriz BE5VB-0770. Um belo começo para a retrospectiva que o GRB faz, alusiva à obra do mestre Pixinguinha. E teremos ainda muito mais no próximo volume... Aguardem!

Texto de Samuel Machado Filho 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Adoniran Barbosa - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 131 (2015)

E eis aqui a primeira edição de 2015 do nosso Grand Record Brazil, o “braço de cera” do Toque Musical, cronologicamente a de número 131. E o GRB começa este ano com o pé direto,homenageando um de nossos mais expressivos compositores, autêntico representante do samba paulista: nada mais nada menos que Adoniran Barbosa.
Nosso ilustre focalizado recebeu na pia batismal o nome de João Rubinato. Nasceu em Valinhos (SP), no dia 6 de agosto de 1910. Filho de imigrantes italianos, abandonou os estudos ainda no curso primário para trabalhar,  tendo sido tecelão, balconista, pintor de paredes e até garçom. Ele achava que João Rubinato não era nome de cantor de samba, e resolveu adotar o nome artístico com o qual ficaria para a posteridade, Adoniran Barbosa, com o Adoniran emprestado de um amigo e o sobrenome em homenagem a outro grande sambista, Luiz Barbosa.  No início dos anos 1930, Adoniran passou a frequentar os programas de calouros da Rádio Cruzeiro do Sul de São Paulo. Foi várias vezes reprovado por causa da voz fanha, mas, em 1933, obteve o primeiro lugar no programa de Jorge Amaral, interpretando “Filosofia”, de Noel Rosa e André Filho. Em 1935, fez sua primeira música, em parceria com o maestro e compositor J. Aymberê, a marchinha “Dona Boa”, sucesso do carnaval daquele ano (foi inclusive a melhor marchinha dessa folia em São Paulo) e incluída nesta seleção. Em 1941, Adoniran transfere-se da Rádio Cruzeiro do Sul para a Record (então “a maior”), a convite de Otávio Gabus Mendes. Ali começou sua carreira de ator, participando da série radioteatral “Serões domingueiros”, e criando seus primeiros personagens, sempre cômicos, caso do malandro Zé Cunversa e do galã de cinema francês Jean Rubinet. Na Record, Adoniran conheceu o produtor Oswaldo Molles, responsável pela criação e pelo texto dos principais personagens interpretados por ele. Ambos trabalharam juntos por 26 anos, e o maior sucesso da parceria foi o programa “Histórias das malocas”, em que Adoniran interpretava o Charutinho. O programa ficou em cartaz até 1965 e chegou até a ser apresentado na televisão. Adoniran e Osvaldo Molles também foram parceiros em muitos sambas, entre eles os clássicos “Tiro ao álvaro”e “Pafunça”.  No cinema, sua primeira aparição foi no filme “Pif-paf”, da Cinédia, em 1945,e Adoniran atuou ainda em “Caídos do céu” (1946), “O cangaceiro” (1953), “Candinho” (1954), “A carrocinha” (1955), estes dois ao lado de Mazzaropi, e “A pensão da dona Estela” (1956).  Em 1952, a carreira de Adoniran Barbosa como compositor ganhou impulso quando os Demônios da Garoa foram premiados no carnaval daquele ano  com o samba “Malvina”. Em 1953, eles repetiram a dose, com outro samba,“Joga a chave”, de Adoniran e Oswaldo França. Começou aí mais uma parceria de anos na vida do mestre Adoniran, com os Demônios imortalizando vários de seus sambas, verdadeiras crônicas da vida paulistana,  tais como “Saudosa maloca”, “O samba do Arnesto” (ambos gravados antes sem sucesso pelo próprio Adoniran), “As mariposa”, “Samba italiano”, “Iracema”  e, claro, “Trem das onze”, que foi até premiado no carnaval carioca de 1965 e foi escolhida, em 2000, como a música que melhor representa a cidade de São Paulo, em concurso promovido pela TV Globo.  Adoniran também é autor da melodia do samba-canção “Bom dia, tristeza”, com letra de Vinícius de Moraes. Na televisão, ainda atuou nos humorísticos “Papai sabe nada” e “Ceará contra 007”, ambos da Record, e nas novelas “Mulheres de areia” e “Os inocentes”, ambas da Tupi. Gravou seu primeiro LP apenas em 1974, e viriam em seguida mais dois, em 1975 e 1980, este último com a participação de grandes nomes da MPB de então, tais como Clara Nunes, Elis Regina,  Djavan, Clementina de Jesus e o grupo MPB-4, em comemoração a seus 70 anos de vida. Adoniran Barbosa morreu no dia 23 de novembro de 1980, aos 72 anos, em São Paulo.

Nesta edição do GRB, um pouco do preciosíssimo legado de Adoniran Barbosa, em dezesseis faixas extraídas de discos 78 rpm. Abrindo esta seleção, o samba “Agora pode chorar”, de Adoniran em parceria com José Nicolini, do carnaval de 1936, que o próprio autor interpreta em gravação lançada pela Columbia em cima dos festejos momescos, em fevereiro, disco 8171-B,matriz 3215. Na faixa seguinte, os Demônios da Garoa interpretam o antológico samba “As mariposa”, de Adoniran sem parceiro, que gravaram na Odeon em primeiro de agosto de 1955, sendo lançado em outubro do mesmo ano, disco 13904-B, matriz 10697. Déo, “o ditador de sucessos”, aqui comparece com o samba “Chega”, de Adoniran em parceria com José Marcílio. Saiu no terceiro disco do  cantor, o Columbia 8212-B, em julho de 1936, matriz 3312, e o acompanhamento é do regional do flautista Atílio Grany. “Conselho de mulher”, parceria de Adoniran com Oswaldo Moles e João Belarmino dos Santos, é interpretado por ele mesmo, em gravação Continental de 23 de julho de 1952, só lançada em março-abril de 53, disco 16707-B, matriz 11414. A próxima faixa é justamente a primeira composição de Adoniran Barbosa, a marchinha “Dona Boa”, parceria com J, Aymberê, retumbante sucesso no carnaval paulistano de 1935. Raul Torres, um dos expoentes máximos da música sertaneja de raiz, a gravou pela Columbia, que lançou o registro em disco sob número 8129-A, matriz 3122. “Iracema” , de Adoniran sozinho, é outro clássico samba seu que os Demônios da Garoa imortalizaram,em gravação Odeon de 11 de janeiro de 1956, lançada em março do mesmo ano, disco 14001-A, matriz 10944. Eles ainda nos brindam justamente com o samba “Malvina”, outro só de Adoniran, sucesso do carnaval de 1952, lançado pelo efêmero selo Elite Special em janeiro desse ano, disco N-1065-A, matriz MIB-1081. E os Demônios ainda interpretam aqui “No Morro da Casa Verde”, em gravação Odeon de 5 de maio de 1959, lançada em junho do mesmo ano, disco 14472-A, matriz 50133, também integrando o LP “Pafunça”. Em seguida, temos uma faceta do Adoniran intérprete,  com a marcha-rancho “Os mimoso colibri”, de Hervê Cordovil e Oswaldo Molles, gravação Continental de 27 de julho de 1951, lançada entre outubro e dezembro do mesmo ano, disco 16468-A, matriz 11334, visando por certo o carnaval de 52. “Quem bate sou eu”, samba de Adoniran e Artur Bernardo, é gravação Odeon dos Demônios da Garoa, feita em 5 de julho de1956 e lançada em novembro do mesmo ano, disco 14115-B, matriz 11251. Temos em seguida dois indiscutíveis clássicos do samba, nas gravações originais de Adoniran pela Continental, mas que só foram sucesso mais tarde com os Demônios da Garoa. Primeiro, “O samba do Arnesto”, parceria com Alocin (Nicola ao contrário), que Adoniran gravou em 23 de julho de 1952, mas só saiu em março-abril de 53, disco 16707-A, matriz 11415. “Saudade da maloca”, de Adoniran e mais ninguém, é o título original do clássico “Saudosa maloca”, gravado pelo autor em 27 de julho de 1951 e lançado entre outubro e dezembro do mesmo ano sob número 16468-B, matriz 11335. Ambos os sambas receberam várias regravações, e curiosamente, estes registros originais do autor seriam relançados pela Continental em 1955, sob número  17173,com “Saudosa maloca” no lado A e o “Arnesto” no verso. A seguir, uma rara incursão de Adoniran no gênero caipira ou sertanejo de raiz, o cateretê “Tô com a cara torta”, parceria com Ivo de Freitas.  Raul Torres e Florêncio o gravaram na Victor em 19 de setembro de 1945, mas o lançamento só aconteceria em abril de 46, disco 80-0393-B, matriz S-078343. “Um amor que já passou”, samba de Adoniran em parceria com Eratóstenes Frazão,  é do segundo disco do cantor Déo, o Columbia 8211-B, lançado em julho de 1936, matriz 3319. Em seguida, voltam os Demônios da Garoa com “Um samba no Bexiga”, de Adoniran sem parceria, gravação Odeon de 4 de abril de 1956, lançada em junho do mesmo ano, disco 14049-B, matriz 11110. Para encerrar, novo exemplo do Adoniran Barbosa apenas intérprete, com o samba “Pra que chorar?”, de Peteleco, lançado em janeiro de 1958 pela RGE sob número 10081-B, matriz RGO-497, por certo visando o carnaval desse ano. Enfim, é o que o GRB tem o prazer de oferecer a vocês, precioso legado deixado por Adoniran Barbosa, cujas músicas eram de fato a cara de São Paulo, e ficarão para sempre em nossa memória! 

* Texto de Samuel Machado Filho