Esta semana o Grand Record Brazil prossegue a retrospectiva
dedicada à obra de Lupicínio Rodrigues (1914-1974), por certo o maior nome que
o Rio Grande do Sul deu à nossa música popular. Depois de apresentarmos o
próprio Lupi interpretando suas composições, temos agora catorze preciosas
gravações de suas obras nas vozes de intérpretes diversos, a maior parte sambas
e sambas-canções.
Para começar, temos o próprio Lupicínio interpretando
“Sombras”, faixa que é o lado B do disco Star 353, editado em maio-junho de
1952 no álbum “Roteiro de um boêmio”. Eram quatro discos 78 embalados em capa
especial, expediente às vezes comum nessa época, em que o LP estava em processo
de implantação, e apenas começava a ser fabricado entre nós. Na faixa seguinte
é “Triste história”, parceria de Lupi com Alcides Gonçalves, por este último
interpretada, gravação Victor de 3 de
agosto de 1936, lançada em setembro do mesmo ano, disco 34089-B (o primeiro com
gravações de músicas de Lupicínio), matriz 80188, samba que, por sinal, venceu,
um ano antes, um concurso realizado em Porto Alegre por ocasião do centenário
da Revolução Farroupilha (os autores abiscoitaram dois contos de réis). Em seguida,o samba-canção “Divórcio”, só de
Lupicínio,por ele composto numa ocasião em que o assunto estava na pauta das
discussões, interpretado por João Dias, cantor que Francisco Alves indicara
para sucedê-lo, dada a semelhança vocal. Gravação Odeon de 29 de janeiro de
1952,lançada em agosto do mesmo ano (um mês antes da trágica morte de Chico
Viola em desastre automotivo), sob n.o
13306-A, matriz 9233. O clássico “Vingança”, também só de Lupicínio, é a faixa
seguinte, na gravação original do Trio de Ouro, então em sua segunda fase, com Noemi Cavalcanti no lugar de Dalva de
Oliveira, que se separara do fundador do grupo, Herivelto Martins, e mantendo
Nilo Chagas (ainda que já tivesse divergências com Herivelto). Gravado na RCA Victor em 10 de abril de 1951
e lançado em junho seguinte sob n.o 80-0776-B,matriz S-092932, “Vingança”,
porém, teve sucesso muito maior posteriormente, na voz de Linda Batista, que
fez da música um clássico, deixando este registro original esquecido. Ainda
assim, o trazemos aqui para reavaliação.
O “rei do samba de breque”, Moreira da Silva, também mostrava algumas
vezes sua faceta sentimental e romântica,como aqui, interpretando “Meu pecado”,
parceria de Lupicínio com Felisberto Martins. Gravação Odeon de 3 de outubro de
1944,lançada em novembro do mesmo ano, disco 12516-B, matriz 7572. Na faixa
seguinte, o primeiro grande hit nacional de Lupicínio como autor, e outra
parceria com Felisberto Martins: o samba “Se acaso você chegasse”,verdadeiro
clássico do gênero, que também projetou seu intérprete, o grande Cyro
Monteiro. Ele imortalizou esta
obra-prima na Victor em 19 de julho de 1938, com lançamento em setembnro
seguinte, sob n.o 34360-A, matriz 80844. Tocou até em um filme americano
chamado ”Dançarina loira” e, em 1959, projetaria também a cantora Elza Soares. A eterna “personalíssima”, Isaura Garcia,
aqui comparece com “Eu não sou louco”, samba que Lupicínio fez com Evaldo Ruy,
visando o carnaval de 1950. Foi gravado na RCA Victor em 14 de novembro de 49,
e saiu um mês antes da folia, em janeiro, com o n.o 80-0625-B, matriz S-078984.
Orlando Silva,o sempre lembrado “cantor das multidões”, vem com outro sucesso:
“Brasa”,que Lupi compôs ao testemunhar as brigas domésticas de seu irmão Francisco com a esposa, na ocasião em
que residiu com eles. Novamente com a parceria de Felisberto Martins, foi
imortalizado por Orlando na Odeon em 9
de março de 1945, e lançado em abril do mesmo ano,disco 12571-A, matriz 7772.
Onofre Pontes é o parceiro do nosso Lupicínio em “Amigo ciúme”, lançado pela
Copacabana em março de 1957, na voz da grande Sapoti, Ângela Maria, disco
5739-B, matriz M-1634. Felisberto Martins volta a ser parceiro de Lupicínio em
“Feiticeira”. Afinal, Lupi era gastrônomo e cozinheiro de mão cheia, e as
mulheres sabiam que o caminho para o seu coração também passava por uma boa
mesa. Gravação de Homero Marques, lançada em 1952 pela Elite Special (coligada
da Odeon), disco N-1081-A, matriz MIB-1131. “Quem há de dizer”, parceria de
Lupicínio com Alcides Gonçalves, é outro clássico do samba-canção e da dor de
cotovelo. Alcides, nessa época, era
pianista em casas noturnas portoalegrenses, e,
enquanto tocava, de certa feita observava enciumado o assédio dos
fregueses da Boate Marabá à sua namorada,Maria Helena, bailarina da casa, o
mesmo acontecendo com Lupicínio em relação à sua escolhida. Era preciso
esperá-las cumprir sua obrigação profissional, o cabaré terminar. Francisco
Alves imortalizou a música (letra de Lupi, melodia de Alcides) na Odeon em 25
de maio de 1948, com lançamento em julho do mesmo ano, disco 12863-A, matriz
8369. “Ponta de lança”, de Lupi sem parceiro, foi gravado na mesma Odeon por
Dircinha Batista em 7 de fevereiro de 1952, com lançamento em abril seguinte no
lado B em que saiu o clássico “Nunca”, também de Lupi, disco 13244, matriz
9249, e obtendo igualmente sucesso, ainda que em menor proporção. Caco Velho (Mateus Nunes), “o sambista
infernal”, e protoalegrense como Lupicínio, assina com ele o samba “Que
baixo!”, e o interpreta com toda a bossa que lhe era peculiar nesta gravação
Continental de 9 de agosto de 1945, lançada em setembro do mesmo ano, disco
15416-A, matriz 1154.Para finalizar a seleção desta semana, homenageamos o time
de futebol de coração do mestre Lupicínio Rodrigues, apresentando o “Hino do
Grêmio”, por ele mesmo composto em 1953, em meio a uma greve no transporte
público de sua Porto Alegre (daí o verso inicial, “Até a pé nós iremos para o
que der e vier”). Tal obra, porém, só
seria gravada efetivamente em 1971, pela Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de
Janeiro (então Estado da Guanabara), para o LP de selo Continental “Hinos do
futebol brasileiro”. É este registro que apresentamos nesta edição do GRB,
merecendo (e com louvor) figurar como exceção à regra de apresentarmos apenas
gravações em 78 rpm. Afinal, o retrato de Lupicínio está na Galeria dos Gremistas Imortais, no salão
nobre do clube. Divirtam-se e até a próxima!
*Texto de Samuel Machado Filho