Esta
semana, o Grand Record Brazil reverencia a memória de outro grande compositor e
sambista brasileiro, com inúmeros sucessos a seu crédito. Estamos falando de
Monsueto. Batizado com o nome de Monsueto Campos de Menezes, nosso focalizado
era carioca da gema, nascido na então Capital da República no dia 4 de novembro
de 1924. Criou-se na favela do Morro do Pinto, entre partideiros, rodas de
samba e batucadas, o que por certo contribuiu para sua formação musical. Foi
baterista de inúmeros grupos musicais, inclusive da orquestra de Nicolino
Cópia, o Copinha, no Copacabana Palace Hotel. Conseguiu seu primeiro sucesso em
um carnaval bastante disputado, o de 1952, com o samba “Me deixa em paz”,
gravado por Linda Batista e constante deste volume. Depois, teve várias de suas
músicas incluídas no espetáculo “Fantasias e fantasia”, também do Copacabana
Palace. No cinema, apareceu em filmes como “Treze cadeiras”, “Na corda bamba”,
“O cantor e o milionário”, “Quem roubou meu samba?” e “A hora e a vez do samba”. Monsueto atuou em vários shows ao lado de
Herivelto Martins, antes de formar seu próprio grupo, com o qual excursionou
pelo Brasil e outros países da América, Europa e África. Era também conhecido
pelo apelido de Comandante, com o qual foi muito popular nos anos 1960, quando
participava de um programa humorístico da extinta TV Rio, Canal 13, lançando
expressões de gíria que se incorporaram à linguagem popular: “castiga”,
“ziriguidum”, “vou botar pra jambrar”, “mora” etc. Só gravou como intérprete um
único LP, na Odeon, “Mora na filosofia dos sambas de Monsueto”, em 1962, e
alguns 78 rpm, além de participações em registros de outros cantores. A partir
de 1965, Monsueto começou a se dedicar também
à pintura primitivista, e até recebeu prêmio do Museu Nacional de Belas
Artes, do Rio de Janeiro. Sem ter se filiado a nenhuma escola de samba carioca,
era bem recebido e respeitado em todas elas, desfilando a cada ano em uma
diferente. A última escola em que Monsueto desfilou, em 1972, foi a Unidos de
Vila Isabel. Pouco depois, quando participava das filmagens de “O forte”
(direção de Olney São Paulo), na Bahia, em que fazia o papel de um diretor de
harmonia de escola de samba, Monsueto adoeceu e foi hospitalizado em seu Rio de
Janeiro natal, onde morreu no dia 17 de março de 1973, vítima de câncer no
fígado. Entre seus hits como autor destacam-se ainda: “Eu quero essa mulher
assim mesmo”, “Na casa de Antônio Jó”, “O lamento da lavadeira” (“Para lavar a
roupa da minha sinhá”...) e outros presentes nesta seleção do GRB, que
perfaz um total de 14 preciosas
gravações, todas, claro, sambas. Vamos a elas, portanto. Linda Batista canta as
três primeiras faixas, em gravações RCA Victor. A primeira é “Levou fermento” (parceria
de Monsueto com Arnaldo Passos), registro de 30 de agosto de 1956, lançado
ainda em novembro para o carnaval de 57, disco 80-1690-B, matriz BE6VB-1286,
abrindo também o LP coletivo com músicas para essa folia, uma prática da época
também adotada por outras gravadoras,
simbolizando uma época de transição de formatos. Na faixa 2, Linda canta
exatamente o primeiro grande sucesso de Monsueto como compositor: “Me deixa em
paz”, parceria com Ayrton Amorim, por ela imortalizado em 6 de agosto de 1951 e
lançado ainda em outubro sob n.o 80-0825-A, matriz S-093017, tornando-se uma
das campeãs do carnaval de 52. E essa folia ainda tinha “Sassaricando”,
“Confete”, “Lata d’água” e outras mais. “Me deixa em paz” teve anos mais tarde,
em 1971, uma ótima regravação com Alaíde Costa em dueto com Mílton Nascimento,
lançada em compacto simples e depois no histórico álbum duplo “Clube da
Esquina”. Linda Batista ainda interpreta “O gemido da saudade”, parceria de
Monsueto com José Batista, gravação de 2
de outubro de 1957, lançada em janeiro de 58 também para o carnaval, disco
80-1888-A, matriz 13-H2PB-0257, e igualmente aparecendo no primeiro dos dois
LPs coletivos da marca do cachorrinho Nipper com músicas para essa folia. Outra
expressiva intérprete de Monsueto, a paulistana Marlene, aqui comparece
com quatro faixas. A primeira é “Na casa
de Corongondó”, da parceria Monsueto-Arnaldo Passos, lançada pela Sinter em
novembro-dezembro de 1955 para o carnaval de 56, sob n.o 00-00.448-B, matriz
S-1000. Dos mesmos autores, Marlene nos traz depois “Canta, menina, canta”,
lançado pela mesma gravadora em maio-junho de 1955 sob n.o 00-00.395-A, matriz
S-893, entrando mais tarde no LP de 10 polegadas “Vamos dançar com Marlene e
seus sucessos”. Em seguida, tem “O couro do falecido”, da parceria Monsueto
–Jorge de Castro, também lançado pela Sinter em novembro-dezembro de 1955 para
o carnaval de 56, disco 00-00.440-B, matriz S-1001, e incluído no LP coletivo
de 10 polegadas “Ritmos brasileiros, vol. 1 – Sambas e marchas”. Este samba
seria incluído no já citado espetáculo “Fantasias e fantasia”, do Copacabana
Palace, mas seu lançamento, em 1954, coincidiu com o suicídio do então
presidente Getúlio Vargas, e a música foi retirada , em virtude das
interpretações que poderiam surgir, só sendo lançada neste registro de Marlene,
mais de um ano depois do trágico acontecimento. Pois no lugar do “Couro do
falecido”, foi inserida justamente a faixa seguinte, um verdadeiro clássico:
“Mora na filosofia”, da dupla Monsueto-Arnaldo Passos, imortalizada pela mesma
Marlene na Continental em 29 de outubro de 1954, com lançamento em janeiro de
55 sob n.o 17047-B, matriz C-3517. Foi uma das campeãs desse carnaval, e teve
regravações aos cachos, inclusive por Maria Bethânia e Caetano Veloso. Dircinha Batista, irmã de Linda, aqui
interpreta “Não se sabe a hora”, da parceria Monsueto-José Batista, gravação
RCA Victor de 25 de setembro de 1957, lançada em janeiro de 58 para o carnaval,
sob n.o 80-1899-B, matriz 13-H2PB-0242, e incluída obviamente em LP coletivo
com músicas para essa folia.Na faixa seguinte, um delicioso samba de Monsueto sem parceria, “Ziriguidum”, que ele
interpreta ao lado de outra expressiva sambista, Elza Soares. Gravação Odeon de
27 de abril de 1961, um dos destaques do LP “O samba é Elza Soares”, que só
chegou ao 78 rpm em fevereiro de 62 com o n.o 14792-A, matriz 14719. Monsueto e Elza também
o interpretaram no filme “Briga, mulher e samba”, da Lupo Filmes, dirigido por
Sanin Cherques. Depois, Raul Moreno interpreta dois sambas de Monsueto que
gravou para a Todamérica em 8 de outubro de 1953, lançados em dezembro seguinte
para o carnaval de 54 no disco TA-5387. No lado A, matriz TA-559, “Mulher de
mau pensar”, parceria de Monsueto com Elói Marques. Mas no lado B, matriz
TA-558, é que estava o maior sucesso: o clássico “A fonte secou”, no qual o
próprio Raul Moreno é parceiro com Monsueto e Marcléo, assinando com seu nome
verdadeiro, Tufic Lauar. Um dos campeões da folia de 1954, “A fonte secou”
também tem várias regravações e é muito lembrado até hoje. Para o carnaval de
1956, Monsueto lançaria uma sequência, em parceria com Geraldo Queiroz e José
Batista, “Eu sou a fonte”, que Walter Levita grava na Odeon em 26 de setembro
de 1955, e é lançado bem em cima da folia, em fevereiro, sob n.o 13949-A,
matriz 10766, aparecendo igualmente no LP coletivo de 10 polegadas “Carnaval,
carnaval!”. O Monsueto intérprete-solo
aparece nas duas últimas faixas deste volume, ambas gravadas na Odeon.
Primeiramente, “Chica da Silva”, de Noel Rosa de Oliveira e Anescar,
samba-enredo com o qual a escola Acadêmicos do Salgueiro foi campeã do carnaval
carioca, em 1963. Teve duas gravações: uma pela Albatroz, com um coral da
gravadora, e esta de Monsueto pela “marca do templo”, feita logo após o
carnaval, em 19 de março de 1963, e lançada em abril seguinte sob n.o 14848-A,
matriz 15711. O lado B, matriz 15712, é um samba do próprio Monsueto em
parceria com José Batista, “Mané João”, encerrando esta retrospectiva que o GRB
dedica à sua obra. Divirtam-se e até a próxima vez!
* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO