E chegamos à edição de número 124 do Grand Record Brazil.
Para esta semana, o amigo Augusto preparou uma seleção variada, interessante e
como sempre de grande valor histórico e artístico. Aqui estão catorze
gravações, por certo bastante representativas de nosso glorioso passado musical,
interpretadas por sete cantores, com duas faixas para cada um.
Para começar, apresentamos Carlos Alberto Ferreira Braga, o
João de Barro, também conhecido por Braguinha (Rio de Janeiro, 29/3/1907-idem, 24/12/2006), compositor de
inúmeros e expressivos sucessos no carnaval e no meio-de-ano. Nesta edição de
GRB, apresentamos duas gravações que ele fez como intérprete, à frente do Bando
de Tangarás, na Parlophon, ambas do disco 13173, lançado em junho de 1930.
Começamos com o lado B, matriz 3539, uma
toada de autoria dele próprio, “A mulher e a carroça”. Depois temos o lado A,
matriz 3538, por certo o que mais apareceu. Trata-se do samba “Minha cabrocha”,
de autoria de Lamartine Babo, então definindo seu estilo. Este, aliás, foi o primeiro grande sucesso
autoral de Lalá, e, embora samba de meio-de-ano, também alcançaria êxito no
carnaval de 1931. “Minha cabrocha” é conhecido até hoje e tem várias
regravações. Nélson Gonçalves (Santana do Livramento, RS, 21/6/1919-Rio de
Janeiro, 18/4/1998), o sempre querido e lembrado “metralha do gogó de ouro”,
cujos álbuns têm sido presença cativa no Toque Musical, está presente nesta
edição do GRB com outras duas faixas, que gravou na Victor em princípio de
carreira. A primeira é o clássico fox-canção “Dos meus braços tu não sairás”,
de autoria de Roberto Roberti. Nélson o imortalizou na marca do cachorrinho
Nipper em 27 de abril de 1944,com lançamento em junho do mesmo ano, disco
80-0186-A, matriz S-052950. Depois temos “A valsa de Maria”, de Custódio
Mesquita e David Nasser, gravada em 28 de janeiro de 1943 e lançada em abril do
mesmo ano, disco 80-0066-A, matriz S-052706. Em ambas as faixas, o
acompanhamento é da orquestra do próprio Custódio Mesquita. Temos, em seguida, as músicas do único 78 rpm de
Jonas Corrêa Tinoco (Niterói, RJ, 14/9/1918-Rio de Janeiro, 1/12/1986), o
Victor 33639, gravado em 13 de julho de 1932 e lançado somente em abril de 33,
quando ele tinha 15 anos incompletos. O lado A, matriz 65543, sem dúvida foi o
que se tornou mais conhecido: a “Canção
do jornaleiro”, de autoria de Heitor dos Prazeres, que popularizou Jonas de
imediato e motivou a realização de uma campanha de amparo aos pequenos jornaleiros.
Êxito permanente, teve regravações por Franquito, Enéas Fontana e até mesmo por
Wanderley Cardoso, um dos futuros astros da Jovem Guarda. No lado B, matriz 65544, Jonas gravou outra
pungentíssima canção, “Não tenho mais felicidade”, composta pelo mesmo autor de
“Cidade maravilhosa” e “Alô, alô”, André Filho. Entretanto, Jonas Tinoco
abandonou de repente sua carreira, que começara bastante promissora, por
motivos até hoje desconhecidos. Sylvio Vieira (Jacareí, SP,
28/5/1899-Petrópolis,RJ, 7/2/1970) tinha origem nobre: era Baronete da Pedra
Negra. Estudou canto lírico e sua estreia profissional se deu em 23 de abril de
1920, no Teatro São José de São Paulo, interpretando o papel de Valentim na
ópera “Fausto”, de Gounod. Atuou em companhias populares e em revistas, nos
principais teatros da então capital da República, o Rio de Janeiro (João
Caetano, Glória. Cassino, Recreio). Em 23 de novembro de 1935, fez parte da
primeira apresentação completa, em português, da ópera “O guarani”, de Carlos
Gomes, no Teatro Municipal carioca, sendo figura constante nas temporadas
líricas oficiais dessa casa de espetáculos até o início dos anos 1960. Sylvio
Vieira comparece nesta edição do GRB com as músicas do disco Victor 33558,
gravado em 29 de abril de 1932 e lançado em junho do mesmo ano. O lado A,
matriz 65477, apresenta o maior sucesso do cantor na área da música popular: a
canção “Frô do ipê”, de autoria do pistonista Bomfiglio de Oliveira, em
parceria com Nélson de Abreu. No lado B, matriz 65478, ele nos apresenta outra
canção, esta de André Filho, “Como é lindo o teu olhar”. Carlos Galhardo, o eterno “cantor que dispensa adjetivos”, é
aqui apresentado em dois momentos distintos de sua vitoriosa carreira. De
início, ele interpreta aqui “Felicidade... é quase nada”, de Joubert de
Carvalho e Gilberto de Andrade, em ritmo de samba-canção (no original era
rumba). Seu criador, nos palcos e no disco, foi Roberto Vilmar, em 1933.A regravação de Galhardo foi feita na
RCA Victor em 24 de maio de 1950, com lançamento em agosto do mesmo ano, disco
80-0674-B, matriz S-092682. Pulamos em seguida para o início da carreira de
Galhardo, apresentando a faixa de abertura de seu primeiro disco, o Victor
33625, gravado em 5 de janeiro de 1933 e lançado em março do mesmo ano, matriz
65658: é o frevo-canção (então chamado de “marcha pernambucana”) “Você não
gosta de mim”, de autoria dos irmãos Raul e João Victor Valença. Carlos
Galhardo,por sinal, seria o cantor do Sul mais fiel ao frevo, lançando músicas
do gênero em vários carnavais, sempre com sucesso certo no Recife e, por
tabela, em todo o Nordeste. Autêntico precursor da bossa nova, Mário Reis (Rio
de Janeiro, 31/12/1907-idem, 5/10/1981) aqui interpreta dois sambas do mestre
de Ubá, Ary Barroso, por sinal seu colega de Faculdade de Direito. Primeiro,
“Deixa esta mulher sofrer”, gravação Columbia de 13 de outubro de 1939, lançada
em dezembro do mesmo ano, disco 55189-A,
matriz 218. A faixa seguinte vem a ser a primeira composição gravada de Ary,
“Vou à Penha”, aludindo a uma festa que acontece no Rio de Janeiro entre os
meses de outubro e novembro, no caminho de subida para a Igreja da Penha, ao
lado do Parque Shangai, com barraquinhas, venda de artigos religiosos,
alimentação típica, etc. O samba saiu no quarto disco de Mário Reis, o Odeon
10298-A, em dezembro de 1928, matriz 2078, e teria uma continuação trinta anos
mais tarde, composta pelo próprio Ary, “Eu fui de novo à Penha”, gravada por
Lucienne Franco. Por fim, apresentamos Roberto Vidal, cantor que teve sua
época, mas foi esquecido com o passar do tempo.
Aqui temos as faixas do disco RCA Victor 80-2159, gravado em 28 de
outubro de 1959 e lançado em janeiro de 60. O lado A, matriz 13-K2PB-0805, é um
clássico bastante conhecido: “Negue”, samba-canção de Adelino Moreira em
parceria com Enzo de Almeida Passos,
criador, no rádio, do “Telefone pedindo bis” e da “Grande parada Brasil”. Teria
seu sucesso confirmado e aumentado pelas regravações que recebeu posteriormente: Carlos Augusto, Linda Rodrigues, Nélson
Gonçalves, Cauby Peixoto... e, em 1978,
“Negue” voltaria às paradas de sucesso, na voz de Maria Bethânia. Este registro original de Roberto Vidal para
“Negue”chegaria, em 1961, a seu primeiro LP, sem título (RCA Camden CALB-5038).
Entretanto, o lado B do 78, matriz 13-K2PB-0806, estranhamente, não teria a
mesma sorte. Trata-se do samba “Triste coração”, de autoria da cantora Linda
Rodrigues em parceria com Aldacir Louro. Portanto, é mais uma raridade que o
GRB nos apresenta, encerrando a seleção desta semana, apresentando sete
cantores e catorze interpretações que têm em comum seu inestimável valor
artístico e histórico. Bom divertimento e até a próxima!
* Texto de Samuel Machado Filho